segunda-feira, 28 de março de 2011

as datas





Uma data é um dia diferente (e não apenas um dia representado por um número em um calendário). A lembrança desse dia assim diferente, esse ritual cíclico rememorado no calendário, permite trazer para o presente um pouco do que foi inesquecível, fazendo com que aquilo que passou (que é desejo) continue existindo.


domingo, 20 de março de 2011

Poema em linha reta (Fernando Pessoa)


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



A melhor interpretação do poema:

http://niilismo.net/poemas/poema_em_linha_reta.php

segunda-feira, 7 de março de 2011

Na ilha por vezes habitada (José Saramago)



Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Antigamente (Carlos Drummond de Andrade)



Com o meu vestido de domingo. Prontinha para ir ao cinematógrafo!


Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era para tirar o pai da forca e não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. O que não impedia que, nesse entrementes, esse ou aquele embarcasse em canoa furada. Encontravam alguém que lhes passasse a manta e azulava, dando às de vila-diogo. Os mais idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo para tomar fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno. Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando balas de altéia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas; não admira que dessem com os burros n’água.

Havia os que tomaram chá em criança, e, ao visitarem família da maior consideração, sabiam cuspir dentro da escarradeira. Se mandavam seus respeitos a alguém, o portador garantia-lhes: “Farei presente.” Outros, ao cruzarem com um sacerdote, tiravam o chapéu, exclamando: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”, ao que o Reverendíssimo correspondia: “Para sempre seja louvado.” E os eruditos, se alguém espirrava — sinal de defluxo — eram impelidos a exortar: “Dominus tecum”. Embora sem saber da missa a metade, os presunçosos queriam ensinar padre-nosso ao vigário, e com isso metiam a mão em cumbuca. Era natural que com eles se perdesse a tramontana. A pessoa cheia de melindres ficava sentida com a desfeita que lhe faziam, quando, por exemplo, insinuavam que seu filho era artioso. Verdade seja que às vezes os meninos eram mesmo encapetados; chegavam a pitar escondido, atrás da igreja. As meninas, não: verdadeiros cromos, umas tetéias.

Antigamente, certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegados com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde Judas perdeu as botas. Uns raros amarravam cachorro com lingüiça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde. As famílias faziam sortimento na venda, tinham conta no carniceiro e arrematavam qualquer quitanda que passasse à porta, desde que o moleque do tabuleiro, quase sempre um cabrito, não tivesse catinga. Acolhiam com satisfação a visita do cometa, que, andando por ceca e meca, trazia novidades de baixo, ou seja, da Corte do Rio de Janeiro. Ele vinha dar dois dedos de prosa e deixar de presente ao dono da casa um canivete roscofe. As donzelas punham carmim e chegavam à sacada para vê-lo apear do macho faceiro. Infelizmente, alguns eram mais do que velhacos: eram grandessíssimos tratantes.

Acontecia o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois, ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era a phtysica, feia era o gálico. Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos lombrigas, asthma os gatos, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam: descansavam.

Mas tudo isso era antigamente, isto é, outrora.



domingo, 20 de fevereiro de 2011

Dúvida do primeiro (?) poema...





tempos, espaços e corpos
pontos, traços e curvas
que se desencontram
se reencontram?
mistério...

16 de novembro de 2008.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Meu novo mundo...





Percorro todas as tardes um quarteirão de paredes
nuas.
Nuas e sujas de idade e de ventos.
Vejo muitos rascunhos de pernas de grilos pregados
nas pedras.
As pedras, entretanto, são mais favoráveis a pernas
de moscas do que de grilos.
Pequenos caracóis deixaram suas casas pregadas
nestas pedras
E as suas lesmas saíram por aí á procura de outras
paredes.
Asas misgalhadinhas de borboletas tingem de azul
estas pedras.
Uma espécie de gosto por tais miudezas me paraliza.
Caminho todas as tardes por estes quarteirões
desertos, é certo.
Mas nunca tenho certeza
Se estou percorrendo o quarteirão deserto
Ou algum deserto em mim.

Manoel de Barros - Miudezas


Foi somente depois de voltar de viagem, e um bom tempo depois, que senti falta dos meus óculos. E aí percebi que eles tinham ficado no velho mundo. Ao comentar sobre isso, um amigo respondeu dizendo que são necessários novos olhos para enxergar bem um novo mundo... Esta resposta coube direitinho no momento. Porque todas as vezes que volto do velho mundo, vejo este nosso novo mundo com outros olhos.

A primeira vez que voltei foi muito difícil, por muitos motivos. Mas as outras vezes não. E esta última volta foi uma tranquilidade. Gosto muito de lá, mas gosto cada vez mais daqui...

Que sensação agradável sentir o clima de calor e umidade, ver o céu carregado e escuro, o vento fazendo barulho, a chuva cair pesada, e o sol aparecer novamente!

Que bom andar pelas minhas ruas de paralelepípedos, perceber o mato nascendo ao redor de tudo, e ver uma beleza estranha nos fios de alta tensão...


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

sul americAna





Sentindo

respirando
sendo
de outra maneira
e da mesma

sul americAna


"Te quiero Sur,
Sur, te quiero".






terça-feira, 18 de janeiro de 2011

´´´´´


Quase vestida de sol

vi a chuva
em cima do morro.

Manoel de Barros


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Morta de medo e viva de esperança...


El atado




Escribir sin contar es como vivir sin vida. Las palabras serán inocentes, pero no su relación. El contador traza una columna del "debe" y otra del "haber" y en la última anota los silencios que supo conseguir. Con las caras de una palabra quisiera hacer piedras y mirarlas todas hasta el fin de mis días. Esas caras siempre tienen otras fugitivas de la boca. Morder la piedra, entonces, es la tarea del poeta, hasta que sangren las encías de la noche. En esa noche navegará sin rumbo fijo, desconfiado de todo, en especial de sí, mirando espejos que cantan como sirenas que no existen. El poeta se atará al palo mayor de su ignorancia para no caer en sí mismo, sino en otro país de aventura mayor, muerto de miedo y vivo de esperanza. Sólo el dolor lo unirá muertovivo al vacío lleno de rostros y verá que ninguno es el suyo. Y todos serán libres.

Juan Gelman


domingo, 16 de janeiro de 2011

v v v v v

Andorinhas passeiam
na chuva
e no meu ocaso

Manoel de Barros


sábado, 15 de janeiro de 2011

Porque passei pela Argentina...





Confianzas (Juan Gelman)

se sienta a la mesa y escribe
“con este poema no tomarás el poder” dice
“con estos versos no harás la Revolución” dice
“ni con miles de versos harás la Revolución” dice

y más: esos versos no han de servirle para
que peones maestros hacheros vivan mejor
coman mejor o él mismo coma viva mejor
ni para enamorar a una le servirán

no ganará plata con ellos
no entrará al cine gratis con ellos
no le darán ropa por ellos
no conseguirá tabaco o vino por ellos

ni papagayos ni bufandas ni barcos
ni toros ni paraguas conseguirá por ellos
si por ellos fuera a la lluvia lo mojará
no alcanzará perdón o gracia por ellos

“con este poema no tomarás el poder” dice
“con estos versos no harás la Revolución” dice
“ni con miles de versos harás la Revolución” dice
se sienta a la mesa y escribe






quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

13-01-11; -22.9022611; -47.0517233

Ainda me lembro
do acontecimento
daquele janeiro
em que nada aconteceu

ou que eu imaginei...

mas era melhor
não acontecer
não pensar
esquecer
era melhor

eu imaginei...

mas até hoje
eu me lembro
que não aconteceu

ou que eu imaginei...

ainda hoje
eu me pergunto
se não era melhor
acontecer

se foi o que eu realmente imaginei...

até hoje
quando eu esqueço
o que aconteceu

aquilo tudo que eu imaginei...

o que aconteceu
teima em acontecer
novamentenovamentenovamente

eu imaginei?

em sonhos
que eu não pedi para sonhar
novamente
para me lembrar

do que eu não sei se não imaginei...

...


Soneto XVII

No te amo como si fueras rosa de sal, topacio 

o flecha de claveles que propagan el fuego: 
te amo como se aman ciertas cosas oscuras, 
secretamente, entre la sombra y el alma. 

Te amo como la planta que no florece y lleva 
dentro de sí, escondida, la luz de aquellas flores, 
y gracias a tu amor vive oscuro en mi cuerpo 
el apretado aroma que ascendió de la tierra. 

Te amo sin saber cómo, ni cuándo, ni de dónde, 
te amo directamente sin problemas ni orgullo: 
así te amo porque no sé amar de otra manera, 

sino así de este modo en que no soy ni eres, 
tan cerca que tu mano sobre mi pecho es mía, 
tan cerca que se cierran tus ojos con mi sueño.

Pablo Neruda - Cien sonetos de amor (1959)


sábado, 11 de dezembro de 2010

El vino...


¿En qué reino, en qué siglo, bajo qué silenciosa

Conjunción de los astros, en qué secreto día

Que el mármol no há salvado, surgió la valerosa


Y s
ingular ideia de inventar la alegria?

Co
m otoños de oro la inventaron.

E
l vino fluye rojo a lo largo de las generaciones

Como el río del tiempo y en el arduo camino


Nos pr
odiga su música, su fuego y sus leones.

En la noche del júbilo o en la jornada adversa


Exalta la alegria o mitiga el espanto

Y el ditirambo nuevo que este día le canto


Otrora lo cantaron el árabe y el persa.


Vino, enseñame el arte de ver mi propia historia


Como si ésta ya fuera ceniza en la memória.


Jorge Luiz Borges - Soneto del vino





domingo, 31 de outubro de 2010

A Disfunção (Manoel de Barros)

Se diz que há na cabeça dos poetas um parafuso de
a menos
Sendo que o mais justo seria o de ter um parafuso
trocado do que a menos.
A troca de parafusos provoca nos poetas uma certa
disfunção lírica.
Nomearei abaixo 7 sintomas dessa disfunção lírica.
1 - A aceitação da inércia para dar movimento às
palavras.
2 - Vocação para explorar os mistérios irracionais.
3 - Percepção de contigüidades anômalas entre
verbos e substantivos.
4 - Gostar de fazer casamentos incestuosos entre
palavras.
5 - Amor por seres desimportantes tanto como pelas
coisas desimportantes.
6 - Mania de dar formato de canto às asperezas de
uma pedra.
7 - Mania de comparecer aos próprios desencontros.
Essas disfunções líricas acabam por dar mais
importância aos passarinhos do que aos senadores.

domingo, 10 de outubro de 2010

Bolo de cenoura com chocolate II



A modéstia é a vaidade escondida atrás da porta

Mário Quintana

Alguém andou dizendo pra mim que, esteticamente, o primeiro bolo de cenoura com chocolate que fiz aqui no meu apê não estava lá grande coisa. Ah, a gente tem cada amigo abusado! rsrs... Mas, talvez para não correr o risco de sofrer alguma vingança, ele amenizou o comentário, acrescentando que, apesar disso, o bolo deve ter ficado gostoso. É... verdade seja dita: depois de experimentar o bolo já frio foi que notei o quanto ele ficou doce - além de feinho mesmo... :(

Assim, para salvar a minha fama de exímia cozinheira, construída e difundida há mais de dez anos pelos frequentadores da cantina do IFCH e entorno, não vi outra saída senão a de jogar tudo fora.

Bão... é preciso saber que um estado de espírito empolgado não resulta necessariamente num bolo lindo e delicioso. E, principalmente, mas isso eu fiquei sabendo agora, que não se deve substituir, na mesma quantidade, açucar refinado por açucar orgânico!

Ok. E como uma boa cozinheira é também uma cozinheira teimosa, lá fui eu para uma nova tentativa. Desta vez, com menos empolgação e mais concentração. E não é que agora tudo correu perfeitamente bem? O bolo ficou lindão!!!

Ó, ó, ó:



Ah, sim, e o mais importante; ficou delicioso!!!


em close!!!



terça-feira, 5 de outubro de 2010


"Seja o tipo de mulher que, quando seus pés tocam o chão a cada manhã, o diabo fala:

- Oh droga, ela acordou!"

sábado, 25 de setembro de 2010

Ouse...

Ouse, ouse... ouse tudo! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!

Lou Salomé

sábado, 18 de setembro de 2010

Bolo de cenoura com chocolate



Recria tua vida, sempre, sempre.
Remove pedras e planta roseiras e faz doces. Recomeça.
Faz de tua vida mesquinha
um poema.

trecho de Aninha e suas pedras, de Cora Coralina


Hoje fiz o meu primeiro bolo de cenoura com chocolate aqui no meu apê. Por um triz a arte não deu um trabalhinho extra, porque o bolo transbordou um tiquinho... É que o fermento era novo e a cozinheira empolgada! Mas no final das contas deu tudo certo... O bolo ficou fofinho e apetitoso, do jeito que deve ser pra gente receber elogios!

Receita

Numa travessa, misture:
- duas xícaras cheias de farinha
- duas xícaras rasas de açucar
- uma colher de sobremesa de fermento

Bata no liquidificador:

- uma xícara e meia de óleo
- seis ovos
- duas cenouras pequenas cortadinhas

Misture os ingredientes secos e molhados, despeje tudo numa fôrma untada com manteiga e leve ao forno pré-aquecido, à 180°C.

Cobertura

- um pote de achocolatado (eu uso toddy, e sem pão-durice)
- uma colher de sobremesa de manteiga
- um pouco de água

Leve ao fogo, deixe ferver e engrossar um pouquinho. Fure o bolo com um garfo e, em seguida, jogue uma parte da cobertura por cima. Essa cobertura precisa ser meio líquida (mas não muito) para que entre dentro do bolo. Deixe o restante da cobertura engrossar mais um pouco. Desligue o fogo e continue mexendo até que a calda começe a arear. Espalhe essa cobertura mais espessa por cima do bolo. Quando a cobertura secar, ela vai ficar crocante!
Et... voilà:


"é péssimo cozinheiro aquele que não pode lamber os próprios dedos"
(frase atribuída à Shakespeare)



Alguém disse uma vez que não é recomendável roubar um pedacinho do bolo antes que ele esteja pronto. Mas não fui eu (que disse...).

domingo, 12 de setembro de 2010

O Menino que Carregava água na Peneira (Manoel de Barros)

Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e sair
correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo que
catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio
do que do cheio.
Falava que vazios são maiores
e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que escrever seria
o mesmo que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser
noviça, monge ou mendigo
ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.

o menino fazia prodígos.
Até fez uma pedra dar flor!
A mãe reparava o menino com ternura.

A mãe falou:
Meu filho você vai ser poeta.
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os
vazios com as suas
peraltagens
e algumas pessoas
vão te amar por seus
despropósitos.

sábado, 28 de agosto de 2010

Ah, palavra...





Veio me dizer que eu desestruturo a linguagem. Eu desestruturo a linguagem? Vejamos: eu estou bem sentado num lugar. Vem uma palavra e tira o lugar de debaixo de mim. Tira o lugar em que eu estava sentado. Eu não fazia nada para que a palavra me desalojasse daquele lugar. E eu nem atrapalhava a passagem de ninguém. Ao retirar de debaixo de mim o lugar, eu desaprumei.

Manoel de Barros

quarta-feira, 21 de julho de 2010

Viajando...






Eu que nasci na era da fumaça: – trenzinho
vagaroso com vagarosas
paradas
em cada estaçãozinha pobre
para comprar
pastéis
pés-de-moleque
sonhos
principalmente sonhos!
porque as moças da cidade vinham olhar o trem passar:
elas suspirando maravilhosas viagens
e a gente com um desejo súbito de ali ficar morando
sempre... Nisto,
o apito da locomotiva
e o trem se afastando
e o trem arquejando
é preciso partir
é preciso chegar
é preciso partir
é preciso chegar... Ah, como esta vida é urgente!
no entanto
eu gostava era mesmo de partir
e - até hoje - quando acaso embarco
para alguma parte
acomodo-me no meu lugar
fecho os olhos e sonho:
viajar, viajar
mas para parte nenhuma...
viajar indefinidamente...
como uma nave espacial perdida entre as estrelas.

Poema Transitório

Mário Quintana



As "férias" estão no finalzinho e a minha rotina entre Campinas e moNTANhas vai recomeçar. Não nasci na era da fumaça, mas queria que os trens voltassem! As estações, por mais pobres que possam ser, são muito mais charmosas do que os terminais rodoviários... Gosto de viajar, olhar a paisagem da janela e sonhar acordada. Às vezes vejo uma casinha bem no topo de uma montanha bem desenhadinha. Que lindo! Sinto como se eu estivesse em outro tempo. Mas não é isso. Há muitos tempos diferentes a um só tempo. Como eles conseguem viver ali? Como viver sem supermercado, sem cinema, sem cruzamentos e semáforos, sem todo o tipo de coisa supérfula que uma cidade produz? Ora, todas essas coisas não substituem um céu estrelado! Eu sou uma tonta por gostar tanto de morar na cidade...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Désir







dia ensolarado da janela, minhas flores brotando coloridas, banho quentinho, saudade de carinho, cidade acordando, vozes, buzinas e às vezes passarinhos...



quinta-feira, 17 de junho de 2010

Devaneio


Queria poder me entregar, agora, ao devaneio
voar num carrossel iluminado
mergulhar na insegurança da falta de nitidez

opacidade hipermétrope
de cores velozes e difusas
das coisas ao meu redor

queria ver tudo como uma aquarela em movimento
atravessar as luzes suspensas no ar

queria, agora e um pouco depois de agora
ir não sei para onde e chegar onde nunca estive
sentir justificada a minha existência


Eu amo todas as loucuras que me justificam


terça-feira, 1 de junho de 2010

Um pouco de Nietzsche...

"Superstição da simultaneidade – Coisas que ocorrem simultaneamente têm ligação, acredita-se. Um parente morre longe de nós, e ao mesmo tempo sonhamos com ele – portanto... mas morrem inúmeros parentes e não sonhamos com eles. O mesmo acontece com os náufragos que fazem votos : não se vê depois, na igreja, os ex-votos dos que pereceram. – Uma pessoa morre, uma coruja pia, um relógio pára, tudo na mesma hora da noite: não haveria uma relação entre essas coisas? Tal pressentimento supõe uma intimidade com a natureza que lisonjeia o ser humano – Reencontramos esse tipo de superstição numa forma refinada, em historiadores e em pintores da civilização, que costumam experimentar uma espécie de hidrofobia ante todas as justaposições sem sentido, nas quais é pródiga a existência dos indivíduos e dos povos".

Nietzsche - Humano, demasiado humano

sábado, 22 de maio de 2010

Mais Quintana...



Inscrição para uma lareira




A vida é um incêndio: nela
dançamos, salamandras mágicas
Que importa restarem cinzas
se a chama foi bela e alta?
Em meio aos toros que desabam,
cantemos a canção das chamas!
Cantemos a canção da vida,
na própria luz consumida...


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Mais Manoel de Barros...






Glossário de transnominações em que não se explicam algumas delas (nenhumas) - ou menos


Poesia, s.f.

Raiz de água larga no rosto da noite
Produto de uma pessoa inclinada a antro
Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã
Espécie de réstia espantada que sai pelas
frinchas de um homem

Designa também a armação de objetos lúdicos com
emprego de palavras imagens cores sons etc. -
geralmente feitos por crianças, pessoas
esquisitas, loucos e bêbados


Poeta, s.m. e f.

Indivíduo que enxerga semente germinar e
engole céu
Espécie de vasadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos
desentendimentos como um rosto


Manoel de Barros. "Arranjos para o assobio". Gramática Expositiva do Chão. Rio de Janeiro: Record, 1992.


domingo, 18 de abril de 2010

Um dos meus livros preferidos de Michel Pêcheux...

De todos os livros escritos por Michel Pêcheux, prefiro todos. Mas, talvez por causa das pesquisas sobre a história da lingüística realizadas em minha tese, a obra A língua inatingível (La langue introuvable, em francês), de Françoise Gadet e Michel Pêcheux (1981), é a que mais consulto, leio e releio. Eis uma das partes que prefiro, acompanhada de uma nota de rodapé, essencial, incontornável e muito divertida:


“Se o objeto da lingüística consiste no duplo fato de que existe língua e existem línguas, é necessário pensar no momento de sua divisão que, aliás, é a imagem de Babel: o mito apresenta a divisão das línguas coincidindo com o começo do Estado, do direito, das ciências e do prazer sexual... logo, com o começo de um impossível retorno ao paraíso perdido, contemporâneo mesmo dessa perda.

A lingüística, ciência da língua e das línguas, ciência da divisão sob a unidade, traria assim, inscrito em seu destino o desejo irrealizável de curar a ferida narcísica aberta pelo conhecimento da divisão. Seria esse destino que induz a estranha propensão da lingüística de resvalar na ignorância? Essa surdez interna ganha terreno cada vez que a lingüística deixa o real da língua, seu objeto próprio, e sucumbe às realidades psicossociológicas dos atos de linguagem que – pelo viés da designação, do contrato, do imperativo ou do performativo – terminam em histórias de maçãs (1)” (p. 19).

(1) Esse fruto empírico-teológico desempenha um papel importante nas reflexões lingüísticas e lógico-lingüísticas, seja nas demonstrações, seja nos exemplos. Algumas maçãs foram comidas uma vez ou outra em Chomsky e também nos lógicos como Reichenbach ou Quine. De modo mais ambicioso, o matemático R. Thom recorre ao enunciado Eva come uma maçã (Modeles mathèmatiques de la morphogenèse) para definir seu “processo de predação”, no qual o objeto desaparece sem que o sujeito (Eva, na ocorrência) seja de forma alguma afetado! Esse mesmo fruto permite que Bloomfield exponha sua teoria behaviorista do sentido. Quando Jill está com fome (“alguns de seus músculos se contraem e são produzidas algumas secreções, sobretudo em seu estômago”), pede a Jack (em uma “resposta-substituta” ao estímulo da fome) para pegar uma maçã para ela, o que ela faz (Langage, cap. 2). Em L’Ordre medical (Seuil, 1978) [Clavreul, J. A ordem médica: poder e impotência do discurso médico. SP: Brasiliense, 1983], Jean Clavreul comentará: “Jill poderia muito bem ter qualquer outra coisa, diferente de uma maçã, para pedir a Jack, como por exemplo, brincar de Adão e Eva, pois é provável que Jill e Jack já tenham ouvido falar de histórias de maçãs e paraíso terrestre, como você e eu (e muito certamente Bloomfield, Chomsky e Lyons, se bem que eles não digam nada sobre isso; mas é dessa forma que se manifesta o recalque pelo discurso ‘científico’)” (p. 41)” (PÊCHEUX & GADET, 1981, p. 24 e 25).



Referência Bibliográfica

PÊCHEUX, Michel & GADET, Françoise (1981) A Língua Inatingível. O Discurso na História da Lingüística. Campinas: Pontes, 2004.

domingo, 28 de março de 2010

Lembranças com cheiro de pipoca doce


Trezentos e sessenta e cinco dias atrás...


Ela: Como será que eles fazem pra pipoca ficar assim tão gostosa, sem pedaço de semente?
Ele: Eles devem fazer com pipoca sem semente.
Ela: Hummm... acho que isso não é muito possível...
Ele: Não??
Ela: É... não é muito possível pipoca sem semente...
Ele: É mesmo, né?!!!
Ela e ele: Hahahaha!!!

Doces lembranças são como pipocas mágicas que perfumam o parque numa tarde ensolarada...

sexta-feira, 5 de março de 2010

O fim de um caminho é o começo de outro...



Março sempre me traz algo novo. Neste ano, março começa para mim com um novo trabalho, um novo caminho. Um começo há muitos anos aguardado...

Feliz caminho novo e muita promessa de vida com as águas de março!!!

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Um dos meus poemas preferidos de Manoel de Barros...



Matéria de poesia


Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia.

O homem que possui um pente e uma árvore serve para a poesia.

Terreno de 10 por 20, sujo de mato, e os detritos que nele gorjeiam, como, por exemplo, latas, servem para poesia.

As coisas que levam a nada têm grande importância.

Cada coisa ordinária é um elemento de estima; cada coisa sem préstimo tem seu lugar na poesia.

As coisas que não pretendem, como, por exemplo, pedras que cheiram água, homens que atravessam períodos de árvore, se prestam para poesia.

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado, como, por exemplo, o coração verde dos pássaros, serve para poesia.

Os loucos de água e estandarte servem demais para a poesia.

O traste é ótimo, o pobre-diabo é colosso.

As pessoas desimportantes dão para a poesia.

Qualquer pessoa ou escada, o que é bom para o lixo é bom para a poesia.

As coisas jogadas fora têm grande importância.

Um homem jogado fora também é objeto de poesia.

Aliás, saber qual o período médio que um homem jogado fora pode permanecer na terra sem nascerem em sua boca as raízes da escória também dá poesia!

Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia.


Riscos...





De que adianta você ter esta alma colada aos ossos dessa carne errada?

Sem o risco, a vida não vale a pena.

Se você não quiser arriscar, não comece.

Isso quer dizer, se você arriscar, perder namorada, esposa, filhos, emprego, a cabeça, e até a alma.

Mas, é sempre melhor isso do que olhar para todas essas outras pessoas que nunca acertam porque nunca se propõem ao risco.



W. Goethe





Tomando o sentido de 'perda' como 'perda de laços', nunca ousaria correr algum risco que implicasse em perder os laços com meus filhos. Arriscaria perder mil namorados, mil casamentos, o emprego e até a alma, mas nunca um filho. É engraçado pensar nessa impossibilidade sem nem mesmo ter passado pela experiência de ser mãe. Aliás, nem sei se quero mais ser mãe. Acho que não.

Excetuando essa impossibilidade, as palavras de Goethe me fascinam inteiramente. Sinto que o meu dever é correr todo o risco que valer a pena. Pouco me importa o que pensem, eu sonho os sonhos mais loucos, realizo os vôos mais altos! Então, claro, vivo caindo e me machucando. Mas, apesar da dor da queda, nunca me esqueço dos instantes de felicidade que senti e que, talvez, também proporcionei. Não deixo de me sentir grata pela riqueza da experiência vivida.


terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Um dos meus poemas preferidos de Machado de Assis...

Uma Criatura

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.


Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.







sábado, 20 de fevereiro de 2010

Fazer, desfazer, refazer...




Refazendo tudo, refazenda...

Gilberto Gil




Nem sempre, ou melhor dizendo, quase nunca conseguimos fazer tudo tão bem quanto desejamos. Mas acreditar nessa possibilidade para toda e qualquer ação é uma ilusão deliciosa.

Pensando nisso, não posso deixar de lembrar de um fato do cotidiano que, para mim, teve muito valor. Foi quando fiz um bolo de cenoura com chocolate que saiu exatamente do jeitinho que eu queria. Meu irmão o chamou de "o bolo perfeito"...

Não, não passo dias e dias pensando em como fazer um bolo da melhor maneira, embora tenha que confessar que já dediquei bons momentos pensando em como aprimorar as minhas receitas. E quando saiu o tal do bolo perfeito, com toda a vaidade do mundo, fiquei tentando rememorar cada etapa para poder refazer tudo novamente, prazeirosamente, perfeitamente...

Por outro lado, também não posso deixar de lembrar de tanta coisa queria ter feito e acabei não conseguindo. Tanta coisa... Lembro aqui do que não escrevi na minha dissertação de mestrado, na minha tese de doutorado, nos meus artigos e, claro, neste blog. A verdade simples é que acabamos sempre fazendo o que é possível diante das circunstâncias em que estamos.

Estou sempre pensando no quanto posso fazer com aquilo que ainda não fiz. Em fazer coisas novas e refazer algumas coisas já feitas. Em me fazer sempre e me desfazer quando as coisas não dão certo. Enfim, em me refazer a cada nova "atuação", de acordo com o meu "placitum", conforme define Nietzsche (ver postagem anterior).

Essa necessidade, tão insistente, de atuar dessa maneira tem o seu lugar mais forte em mim na escrita. A cada palavra que escrevo, outra palavra surge impondo a necessidade da sua presença. E depois, isso ocorre com outra palavra e outra e outra. E essas palavras, sedutoras, vão me convencendo que devem entrar nos meus textos e que outras devem sumir. E o mesmo ocorre neste texto aqui, que estou agora, incessantemente, escrevendo, desescrevendo e reescrevendo...


Placitum



"Atuando, deixamos de lado – Não suporto, deveras, toda a moral que diz: “Não faças isso, não faças aquilo! Renuncia! Domina-te!...”. No entanto, aprecio a moral que me leva a fazer uma coisa e a refazê-la, a pensar nela de manhã à noite, a sonhar com ela durante a noite, e a não ter jamais outra preocupação que não seja fazê-la bem, tão bem quando somente eu posso entre todos os homens. A viver assim despojamo-nos, uma a uma, de todas as preocupações que não têm nada a ver com esta vida: vê-se sem ódio nem repugnância desaparecer hoje isto, amanhã aquilo, como folhas amarelas que o menor sopro solta da árvore; ou mesmo nem sequer se dá por isso, de tal modo o objetivo absorve, de tal modo o olhar se obstina em ver para diante, não se desviando nunca, nem para a direita nem para a esquerda, nem para cima nem para baixo. “É a nossa atividade que deve determinar o que deixamos de lado; e atuando, deixamos”, eis o que eu gosto, eis o meu próprio placitum (princípio)! Mas não tenho intenção de buscar com os olhos abertos o meu empobrecimento, não aprecio essas virtudes negativas que têm por essência a negação e a renúncia de si".

Nietzsche, em A Gaia Ciência.


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O bem e o mal


Você mesmo é um participante do mal, caso contrário não estaria vivo. O que quer que você faça é mau para alguém. Essa é uma das ironias de toda a criação.
Joseph Campbell - O Poder do Mito


Ao afirmar isso, Campbell não está sendo relativista nem dizendo que só nos resta ser passivos diante do mal que sofremos ou que causamos. Ao contrário, em seu texto, ao discutir sobre essa afirmação, Campbell aponta para outra conclusão: a de que devemos participar desta vida, tal como ela é: ao mesmo tempo horrível e maravilhosa. Mesmo que seja difícil afirmar isso sem reservas, mesmo que soframos, devemos tomar parte no jogo e fazer o melhor que pudermos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Uma pitadinha de lucidez




"...sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura."
Fernando Pessoa




Sou feita de palavras que já foram ditas antes, com alguma coisa de novo... sou feita de música e movimento... de coisas de cores indefinidas... de cheiros de sonho... de delírios, de devaneios... Eu não me alcanço, mas tento, todos os dias... Sou feita de vontades impossíveis e insensatas... É que o vento passa por mim e o sol brilha... E se um não passa, e se o outro não brilha, eu lembro que tenho memória, e eles estão lá! Ah, acho que também sou feita de uma pitatinha de lucidez...

Saudade do que ainda não aconteceu

"A tua saudade corta feito aço de navaia..."
Pena Branca e Xavantinho




A saudade não existe sem algum passado, sem alguma memória.
Mas ela existe também no presente, naqueles momentos em que algum fato extraordinário acontece e ficamos sabendo, no instante mesmo do seu acontecimento, que ele vai virar memória.
E, com muita freqüência, podemos observar a saudade transitando pelo futuro, nas mais mirabolantes projeções que construímos na nossa imaginação.
A saudade se alimenta de tempos diferentes, ela mistura presente, passado e futuro.
Já faz tempo que estou com saudade do que ainda não aconteceu...

- do meu novo trabalho; mal posso esperar para pôr as mãos na massa!
- da minha nova rotina: de horários, roteiros, pesquisas, viagens...
- do meu apartamento, que ainda não escolhi, mas vai ser lindo!
- do meu espaço para a solidão, sem ninguém por perto ou no meio de desconhecidos...
- de tantos amigos distantes: quantos verei novamente? quantos não verei mais?
- do meu irmão, que espero ansiosamente encontrar daqui a alguns meses!
- e do meu reencontro... não quero que fique no quase... será que vai acontecer?

No futuro, quero voltar aqui e escrever que senti saudade disso tudo, nos seus instantes mágicos de presente...