dia ensolarado da janela, minhas flores brotando coloridas, banho quentinho, saudade de carinho, cidade acordando, vozes, buzinas e às vezes passarinhos...
segunda-feira, 28 de junho de 2010
quinta-feira, 17 de junho de 2010
Devaneio
Queria poder me entregar, agora, ao devaneio
voar num carrossel iluminado
mergulhar na insegurança da falta de nitidez
opacidade hipermétrope
de cores velozes e difusas
das coisas ao meu redor
queria ver tudo como uma aquarela em movimento
atravessar as luzes suspensas no ar
queria, agora e um pouco depois de agora
ir não sei para onde e chegar onde nunca estive
sentir justificada a minha existência
voar num carrossel iluminado
mergulhar na insegurança da falta de nitidez
opacidade hipermétrope
de cores velozes e difusas
das coisas ao meu redor
queria ver tudo como uma aquarela em movimento
atravessar as luzes suspensas no ar
queria, agora e um pouco depois de agora
ir não sei para onde e chegar onde nunca estive
sentir justificada a minha existência
Eu amo todas as loucuras que me justificam
terça-feira, 1 de junho de 2010
Um pouco de Nietzsche...
"Superstição da simultaneidade – Coisas que ocorrem simultaneamente têm ligação, acredita-se. Um parente morre longe de nós, e ao mesmo tempo sonhamos com ele – portanto... mas morrem inúmeros parentes e não sonhamos com eles. O mesmo acontece com os náufragos que fazem votos : não se vê depois, na igreja, os ex-votos dos que pereceram. – Uma pessoa morre, uma coruja pia, um relógio pára, tudo na mesma hora da noite: não haveria uma relação entre essas coisas? Tal pressentimento supõe uma intimidade com a natureza que lisonjeia o ser humano – Reencontramos esse tipo de superstição numa forma refinada, em historiadores e em pintores da civilização, que costumam experimentar uma espécie de hidrofobia ante todas as justaposições sem sentido, nas quais é pródiga a existência dos indivíduos e dos povos".
Nietzsche - Humano, demasiado humano
sábado, 22 de maio de 2010
Mais Quintana...
segunda-feira, 19 de abril de 2010
Mais Manoel de Barros...

Glossário de transnominações em que não se explicam algumas delas (nenhumas) - ou menos
Poesia, s.f.
Raiz de água larga no rosto da noite
Produto de uma pessoa inclinada a antro
Remanso que um riacho faz sob o caule da manhã
Espécie de réstia espantada que sai pelas
frinchas de um homem
Designa também a armação de objetos lúdicos com
emprego de palavras imagens cores sons etc. -
geralmente feitos por crianças, pessoas
esquisitas, loucos e bêbados
Poeta, s.m. e f.
Indivíduo que enxerga semente germinar e
engole céu
Espécie de vasadouro para contradições
Sabiá com trevas
Sujeito inviável: aberto aos
desentendimentos como um rosto
Manoel de Barros. "Arranjos para o assobio". Gramática Expositiva do Chão. Rio de Janeiro: Record, 1992.
domingo, 18 de abril de 2010
Um dos meus livros preferidos de Michel Pêcheux...
De todos os livros escritos por Michel Pêcheux, prefiro todos. Mas, talvez por causa das pesquisas sobre a história da lingüística realizadas em minha tese, a obra A língua inatingível (La langue introuvable, em francês), de Françoise Gadet e Michel Pêcheux (1981), é a que mais consulto, leio e releio. Eis uma das partes que prefiro, acompanhada de uma nota de rodapé, essencial, incontornável e muito divertida:
“Se o objeto da lingüística consiste no duplo fato de que existe língua e existem línguas, é necessário pensar no momento de sua divisão que, aliás, é a imagem de Babel: o mito apresenta a divisão das línguas coincidindo com o começo do Estado, do direito, das ciências e do prazer sexual... logo, com o começo de um impossível retorno ao paraíso perdido, contemporâneo mesmo dessa perda.
A lingüística, ciência da língua e das línguas, ciência da divisão sob a unidade, traria assim, inscrito em seu destino o desejo irrealizável de curar a ferida narcísica aberta pelo conhecimento da divisão. Seria esse destino que induz a estranha propensão da lingüística de resvalar na ignorância? Essa surdez interna ganha terreno cada vez que a lingüística deixa o real da língua, seu objeto próprio, e sucumbe às realidades psicossociológicas dos atos de linguagem que – pelo viés da designação, do contrato, do imperativo ou do performativo – terminam em histórias de maçãs (1)” (p. 19).
(1) Esse fruto empírico-teológico desempenha um papel importante nas reflexões lingüísticas e lógico-lingüísticas, seja nas demonstrações, seja nos exemplos. Algumas maçãs foram comidas uma vez ou outra em Chomsky e também nos lógicos como Reichenbach ou Quine. De modo mais ambicioso, o matemático R. Thom recorre ao enunciado Eva come uma maçã (Modeles mathèmatiques de la morphogenèse) para definir seu “processo de predação”, no qual o objeto desaparece sem que o sujeito (Eva, na ocorrência) seja de forma alguma afetado! Esse mesmo fruto permite que Bloomfield exponha sua teoria behaviorista do sentido. Quando Jill está com fome (“alguns de seus músculos se contraem e são produzidas algumas secreções, sobretudo em seu estômago”), pede a Jack (em uma “resposta-substituta” ao estímulo da fome) para pegar uma maçã para ela, o que ela faz (Langage, cap. 2). Em L’Ordre medical (Seuil, 1978) [Clavreul, J. A ordem médica: poder e impotência do discurso médico. SP: Brasiliense, 1983], Jean Clavreul comentará: “Jill poderia muito bem ter qualquer outra coisa, diferente de uma maçã, para pedir a Jack, como por exemplo, brincar de Adão e Eva, pois é provável que Jill e Jack já tenham ouvido falar de histórias de maçãs e paraíso terrestre, como você e eu (e muito certamente Bloomfield, Chomsky e Lyons, se bem que eles não digam nada sobre isso; mas é dessa forma que se manifesta o recalque pelo discurso ‘científico’)” (p. 41)” (PÊCHEUX & GADET, 1981, p. 24 e 25).
Referência Bibliográfica
PÊCHEUX, Michel & GADET, Françoise (1981) A Língua Inatingível. O Discurso na História da Lingüística. Campinas: Pontes, 2004.
“Se o objeto da lingüística consiste no duplo fato de que existe língua e existem línguas, é necessário pensar no momento de sua divisão que, aliás, é a imagem de Babel: o mito apresenta a divisão das línguas coincidindo com o começo do Estado, do direito, das ciências e do prazer sexual... logo, com o começo de um impossível retorno ao paraíso perdido, contemporâneo mesmo dessa perda.
A lingüística, ciência da língua e das línguas, ciência da divisão sob a unidade, traria assim, inscrito em seu destino o desejo irrealizável de curar a ferida narcísica aberta pelo conhecimento da divisão. Seria esse destino que induz a estranha propensão da lingüística de resvalar na ignorância? Essa surdez interna ganha terreno cada vez que a lingüística deixa o real da língua, seu objeto próprio, e sucumbe às realidades psicossociológicas dos atos de linguagem que – pelo viés da designação, do contrato, do imperativo ou do performativo – terminam em histórias de maçãs (1)” (p. 19).
(1) Esse fruto empírico-teológico desempenha um papel importante nas reflexões lingüísticas e lógico-lingüísticas, seja nas demonstrações, seja nos exemplos. Algumas maçãs foram comidas uma vez ou outra em Chomsky e também nos lógicos como Reichenbach ou Quine. De modo mais ambicioso, o matemático R. Thom recorre ao enunciado Eva come uma maçã (Modeles mathèmatiques de la morphogenèse) para definir seu “processo de predação”, no qual o objeto desaparece sem que o sujeito (Eva, na ocorrência) seja de forma alguma afetado! Esse mesmo fruto permite que Bloomfield exponha sua teoria behaviorista do sentido. Quando Jill está com fome (“alguns de seus músculos se contraem e são produzidas algumas secreções, sobretudo em seu estômago”), pede a Jack (em uma “resposta-substituta” ao estímulo da fome) para pegar uma maçã para ela, o que ela faz (Langage, cap. 2). Em L’Ordre medical (Seuil, 1978) [Clavreul, J. A ordem médica: poder e impotência do discurso médico. SP: Brasiliense, 1983], Jean Clavreul comentará: “Jill poderia muito bem ter qualquer outra coisa, diferente de uma maçã, para pedir a Jack, como por exemplo, brincar de Adão e Eva, pois é provável que Jill e Jack já tenham ouvido falar de histórias de maçãs e paraíso terrestre, como você e eu (e muito certamente Bloomfield, Chomsky e Lyons, se bem que eles não digam nada sobre isso; mas é dessa forma que se manifesta o recalque pelo discurso ‘científico’)” (p. 41)” (PÊCHEUX & GADET, 1981, p. 24 e 25).
Referência Bibliográfica
PÊCHEUX, Michel & GADET, Françoise (1981) A Língua Inatingível. O Discurso na História da Lingüística. Campinas: Pontes, 2004.
domingo, 28 de março de 2010
Lembranças com cheiro de pipoca doce
Trezentos e sessenta e cinco dias atrás...
Ela: Como será que eles fazem pra pipoca ficar assim tão gostosa, sem pedaço de semente?
Ele: Eles devem fazer com pipoca sem semente.
Ela: Hummm... acho que isso não é muito possível...
Ele: Não??
Ela: É... não é muito possível pipoca sem semente...
Ele: É mesmo, né?!!!
Ela e ele: Hahahaha!!!
Doces lembranças são como pipocas mágicas que perfumam o parque numa tarde ensolarada...
sexta-feira, 5 de março de 2010
O fim de um caminho é o começo de outro...
Março sempre me traz algo novo. Neste ano, março começa para mim com um novo trabalho, um novo caminho. Um começo há muitos anos aguardado...
Feliz caminho novo e muita promessa de vida com as águas de março!!!
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
Um dos meus poemas preferidos de Manoel de Barros...
Matéria de poesia
Todas as coisas cujos valores podem ser disputados no cuspe à distância servem para poesia.
O homem que possui um pente e uma árvore serve para a poesia.
Terreno de 10 por 20, sujo de mato, e os detritos que nele gorjeiam, como, por exemplo, latas, servem para poesia.
As coisas que levam a nada têm grande importância.
Cada coisa ordinária é um elemento de estima; cada coisa sem préstimo tem seu lugar na poesia.
As coisas que não pretendem, como, por exemplo, pedras que cheiram água, homens que atravessam períodos de árvore, se prestam para poesia.
Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma e que você não pode vender no mercado, como, por exemplo, o coração verde dos pássaros, serve para poesia.
Os loucos de água e estandarte servem demais para a poesia.
O traste é ótimo, o pobre-diabo é colosso.
As pessoas desimportantes dão para a poesia.
Qualquer pessoa ou escada, o que é bom para o lixo é bom para a poesia.
As coisas jogadas fora têm grande importância.
Um homem jogado fora também é objeto de poesia.
Aliás, saber qual o período médio que um homem jogado fora pode permanecer na terra sem nascerem em sua boca as raízes da escória também dá poesia!
Tudo aquilo que a nossa civilização rejeita, pisa e mija em cima, serve para poesia.
Riscos...

De que adianta você ter esta alma colada aos ossos dessa carne errada?
Sem o risco, a vida não vale a pena.
Se você não quiser arriscar, não comece.
Isso quer dizer, se você arriscar, perder namorada, esposa, filhos, emprego, a cabeça, e até a alma.
Mas, é sempre melhor isso do que olhar para todas essas outras pessoas que nunca acertam porque nunca se propõem ao risco.
W. Goethe
Tomando o sentido de 'perda' como 'perda de laços', nunca ousaria correr algum risco que implicasse em perder os laços com meus filhos. Arriscaria perder mil namorados, mil casamentos, o emprego e até a alma, mas nunca um filho. É engraçado pensar nessa impossibilidade sem nem mesmo ter passado pela experiência de ser mãe. Aliás, nem sei se quero mais ser mãe. Acho que não.
Excetuando essa impossibilidade, as palavras de Goethe me fascinam inteiramente. Sinto que o meu dever é correr todo o risco que valer a pena. Pouco me importa o que pensem, eu sonho os sonhos mais loucos, realizo os vôos mais altos! Então, claro, vivo caindo e me machucando. Mas, apesar da dor da queda, nunca me esqueço dos instantes de felicidade que senti e que, talvez, também proporcionei. Não deixo de me sentir grata pela riqueza da experiência vivida.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010
Um dos meus poemas preferidos de Machado de Assis...
Uma Criatura
Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas,
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo.
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois esta criatura está em toda a obra;
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.

sábado, 20 de fevereiro de 2010
Fazer, desfazer, refazer...
Refazendo tudo, refazenda...
Gilberto Gil
Nem sempre, ou melhor dizendo, quase nunca conseguimos fazer tudo tão bem quanto desejamos. Mas acreditar nessa possibilidade para toda e qualquer ação é uma ilusão deliciosa.
Pensando nisso, não posso deixar de lembrar de um fato do cotidiano que, para mim, teve muito valor. Foi quando fiz um bolo de cenoura com chocolate que saiu exatamente do jeitinho que eu queria. Meu irmão o chamou de "o bolo perfeito"...
Não, não passo dias e dias pensando em como fazer um bolo da melhor maneira, embora tenha que confessar que já dediquei bons momentos pensando em como aprimorar as minhas receitas. E quando saiu o tal do bolo perfeito, com toda a vaidade do mundo, fiquei tentando rememorar cada etapa para poder refazer tudo novamente, prazeirosamente, perfeitamente...
Por outro lado, também não posso deixar de lembrar de tanta coisa queria ter feito e acabei não conseguindo. Tanta coisa... Lembro aqui do que não escrevi na minha dissertação de mestrado, na minha tese de doutorado, nos meus artigos e, claro, neste blog. A verdade simples é que acabamos sempre fazendo o que é possível diante das circunstâncias em que estamos.
Estou sempre pensando no quanto posso fazer com aquilo que ainda não fiz. Em fazer coisas novas e refazer algumas coisas já feitas. Em me fazer sempre e me desfazer quando as coisas não dão certo. Enfim, em me refazer a cada nova "atuação", de acordo com o meu "placitum", conforme define Nietzsche (ver postagem anterior).
Essa necessidade, tão insistente, de atuar dessa maneira tem o seu lugar mais forte em mim na escrita. A cada palavra que escrevo, outra palavra surge impondo a necessidade da sua presença. E depois, isso ocorre com outra palavra e outra e outra. E essas palavras, sedutoras, vão me convencendo que devem entrar nos meus textos e que outras devem sumir. E o mesmo ocorre neste texto aqui, que estou agora, incessantemente, escrevendo, desescrevendo e reescrevendo...
Placitum
"Atuando, deixamos de lado – Não suporto, deveras, toda a moral que diz: “Não faças isso, não faças aquilo! Renuncia! Domina-te!...”. No entanto, aprecio a moral que me leva a fazer uma coisa e a refazê-la, a pensar nela de manhã à noite, a sonhar com ela durante a noite, e a não ter jamais outra preocupação que não seja fazê-la bem, tão bem quando somente eu posso entre todos os homens. A viver assim despojamo-nos, uma a uma, de todas as preocupações que não têm nada a ver com esta vida: vê-se sem ódio nem repugnância desaparecer hoje isto, amanhã aquilo, como folhas amarelas que o menor sopro solta da árvore; ou mesmo nem sequer se dá por isso, de tal modo o objetivo absorve, de tal modo o olhar se obstina em ver para diante, não se desviando nunca, nem para a direita nem para a esquerda, nem para cima nem para baixo. “É a nossa atividade que deve determinar o que deixamos de lado; e atuando, deixamos”, eis o que eu gosto, eis o meu próprio placitum (princípio)! Mas não tenho intenção de buscar com os olhos abertos o meu empobrecimento, não aprecio essas virtudes negativas que têm por essência a negação e a renúncia de si".
Nietzsche, em A Gaia Ciência.
Nietzsche, em A Gaia Ciência.
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
O bem e o mal
Você mesmo é um participante do mal, caso contrário não estaria vivo. O que quer que você faça é mau para alguém. Essa é uma das ironias de toda a criação.
Joseph Campbell - O Poder do Mito
Ao afirmar isso, Campbell não está sendo relativista nem dizendo que só nos resta ser passivos diante do mal que sofremos ou que causamos. Ao contrário, em seu texto, ao discutir sobre essa afirmação, Campbell aponta para outra conclusão: a de que devemos participar desta vida, tal como ela é: ao mesmo tempo horrível e maravilhosa. Mesmo que seja difícil afirmar isso sem reservas, mesmo que soframos, devemos tomar parte no jogo e fazer o melhor que pudermos.
quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
Uma pitadinha de lucidez
"...sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura."
Fernando Pessoa
Sou feita de palavras que já foram ditas antes, com alguma coisa de novo... sou feita de música e movimento... de coisas de cores indefinidas... de cheiros de sonho... de delírios, de devaneios... Eu não me alcanço, mas tento, todos os dias... Sou feita de vontades impossíveis e insensatas... É que o vento passa por mim e o sol brilha... E se um não passa, e se o outro não brilha, eu lembro que tenho memória, e eles estão lá! Ah, acho que também sou feita de uma pitatinha de lucidez...
Saudade do que ainda não aconteceu
"A tua saudade corta feito aço de navaia..."
Pena Branca e Xavantinho
Pena Branca e Xavantinho
A saudade não existe sem algum passado, sem alguma memória.
Mas ela existe também no presente, naqueles momentos em que algum fato extraordinário acontece e ficamos sabendo, no instante mesmo do seu acontecimento, que ele vai virar memória.
E, com muita freqüência, podemos observar a saudade transitando pelo futuro, nas mais mirabolantes projeções que construímos na nossa imaginação.
A saudade se alimenta de tempos diferentes, ela mistura presente, passado e futuro.
Já faz tempo que estou com saudade do que ainda não aconteceu...
- do meu novo trabalho; mal posso esperar para pôr as mãos na massa!
- da minha nova rotina: de horários, roteiros, pesquisas, viagens...
- do meu apartamento, que ainda não escolhi, mas vai ser lindo!
- do meu espaço para a solidão, sem ninguém por perto ou no meio de desconhecidos...
- de tantos amigos distantes: quantos verei novamente? quantos não verei mais?
- do meu irmão, que espero ansiosamente encontrar daqui a alguns meses!
- e do meu reencontro... não quero que fique no quase... será que vai acontecer?
No futuro, quero voltar aqui e escrever que senti saudade disso tudo, nos seus instantes mágicos de presente...
Mas ela existe também no presente, naqueles momentos em que algum fato extraordinário acontece e ficamos sabendo, no instante mesmo do seu acontecimento, que ele vai virar memória.
E, com muita freqüência, podemos observar a saudade transitando pelo futuro, nas mais mirabolantes projeções que construímos na nossa imaginação.
A saudade se alimenta de tempos diferentes, ela mistura presente, passado e futuro.
Já faz tempo que estou com saudade do que ainda não aconteceu...
- do meu novo trabalho; mal posso esperar para pôr as mãos na massa!
- da minha nova rotina: de horários, roteiros, pesquisas, viagens...
- do meu apartamento, que ainda não escolhi, mas vai ser lindo!
- do meu espaço para a solidão, sem ninguém por perto ou no meio de desconhecidos...
- de tantos amigos distantes: quantos verei novamente? quantos não verei mais?
- do meu irmão, que espero ansiosamente encontrar daqui a alguns meses!
- e do meu reencontro... não quero que fique no quase... será que vai acontecer?
No futuro, quero voltar aqui e escrever que senti saudade disso tudo, nos seus instantes mágicos de presente...
sábado, 23 de janeiro de 2010
Identidade
Há uma história maravilhosa sobre o deus da identidade, que disse: "Eu sou". E assim que disse "Eu sou", teve medo. Porque passou a ser uma entidade no tempo. Então pensou: "De que poderia ter medo, se sou a única coisa que existe?" E assim que o disse sentiu-se solitário, e quis que houvesse outro, ali, e então sentiu desejo. Aí cindiu-se, dividiu-se em dois, tornou-se macho e fêmea, e originou-se o mundo.
Joseph Campbell - O Poder do Mito
Saudade de mim
quero um dia ensolarado de mar sem fim
entrar na água, pular, gritar, rir, chorar
sem olhares, sem passantes, sem rumores
quero matar a saudade de mim
quero deitar na areia com o corpo salgado
dormir, acordar e seguir novamente pro mar
depois caminhar com o coração descansado
e deixar a saudade dos outros voltar
sábado, 7 de novembro de 2009
É preciso ser louco?
"Mas (todas as igrejas o sabem) é preciso ser louco para querer fugir do Jardim do Éden (ou simplesmente para duvidar de que se se encontra lá) – daí os hospitais psiquiátricos especializados".
Do texto Delimitações, Inversões, Deslocamentos, de Michel Pêcheux.
É preciso ser louco
Mordechaï - Schlomo, por que você é o louco?
Schlomo - Por acaso. Eu queria ser rabino, mas o lugar já tinha sido pego. Como faltava um louco, eu disse a mim mesmo: “Seja o louco! Senão eles é que se tornarão". Eu sou louco no lugar deles.
Mordechaï – E você não se sente um pouco só?
Schlomo – Ah, não! Loucos é que não faltam!
Mordechaï – Não, queria dizer... uma mulher... Por que você nunca teve uma mulher, crianças, um lar?
Schlomo – Ah, não! Eu não sou louco! Eu os teria amado demais, eu teria morrido de amor... ou me tornado louco! Não! Não!
Schlomo - Por acaso. Eu queria ser rabino, mas o lugar já tinha sido pego. Como faltava um louco, eu disse a mim mesmo: “Seja o louco! Senão eles é que se tornarão". Eu sou louco no lugar deles.
Mordechaï – E você não se sente um pouco só?
Schlomo – Ah, não! Loucos é que não faltam!
Mordechaï – Não, queria dizer... uma mulher... Por que você nunca teve uma mulher, crianças, um lar?
Schlomo – Ah, não! Eu não sou louco! Eu os teria amado demais, eu teria morrido de amor... ou me tornado louco! Não! Não!
Do filme Train de Vie, de Radu Mihaileanu.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Fronteira injustificável
O que adveio de fato foi a imagem do socialismo localizado, contido em um “outro mundo”, pelo mundo capitalista, quando não dentro dele. A URSS, e depois o “campo socialista”, tornavam assim o lugar da Utopia realizada, a ilha experimental sitiada e defendida como uma fortaleza, onde o milagre do socialismo estava a se operar: o alhures realizado tornava a forma do “realizado alhures".
Do texto Delimitações, Inversões, Deslocamentos, de Michel Pêcheux.
Fronteiras são inevitáveis. Isso pode ser visto como algo positivo, como lugar da diferença, da constituição de outros sentidos possíveis. Mas muitas fronteiras (visíveis ou não) são injustificáveis e poderiam ser evitadas. A meu ver, a construção de um muro para isolar uma forma de Estado de outra e conter fugas é injustificável. Significa a própria negação do Socialismo. Para mim, a queda do muro não significa necessariamente uma rejeição ao Socialismo, mas uma inconformidade diante da privação de direitos pré-existentes.
domingo, 1 de novembro de 2009
Imoral
Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo.
Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e a desobediência representa respeito.
Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos.
Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade.
Este olhar é o da alma.
Nilton Bonder
Se eu tiver uma alma, ela só pode ser metáfora.
Se ela tiver um olhar, ele só pode ser imoral.
Mas, talvez essa metáfora imoral não saiba tanto.
No entanto, ela sabe que é seu dever lutar para e pelo saber.
Justamente o saber, essa outra metáfora tão inevitavelmente opaca.
Tento
imoralmente
saber
olhar
(des)acertar
(des)obedecer
(des)caminhar as distâncias
(des)nudar sentimentos
viver
amar
...
segunda-feira, 12 de outubro de 2009
Versões de mim
"O que há são versões"
Eni Orlandi
que versões de mim
não contam quem sou
eu me conto em versões
sem jamais saber quais
elas contam o que é desejo
que está em mim
e que também não vejo
domingo, 11 de outubro de 2009
Palavra e silêncio
"Tudo não pode ser dito"
Jean-Claude Milner
tudo não pode ser dito
mas digo tudo que posso
porque penso que devo
o que devo, não sei
mas não sei ser indelicada
não sendo assim, sou palavra
em palavra, meu silêncio é coragem
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Trois temps...
Le passé c'est le passé
je le garde avec tendresse.
Maintenant, je repars au zero.
Je vis le present, mon present.
Et le futur... c'est un mystère !
Ah, j'adore des mystères !
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Meu aniversário!!!
Hoje, sinto saudades do meu irmão, dos meus amigos de longe e dos meus amigos que já partiram. Sinto essa malegria que canta Manu Chao. É mais alegria.
Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo....
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.
Mi paso retrocedido cuando el de usted es avance
El arca de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.
Se va enredando, enredando...
Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.
Se va enredando, enredando...
El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.
Se va enredando, enredando...
De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.
Se va enredando, enredando...
Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo....
Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.
Mi paso retrocedido cuando el de usted es avance
El arca de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.
Se va enredando, enredando...
Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.
Se va enredando, enredando...
El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.
Se va enredando, enredando...
De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.
Se va enredando, enredando...
Quero ser responsável apenas por aquilo que me tocar. Apreciar detalhes insignificantes do dia-a-dia. Soprar uma flor morta e ver voarem suas sementes. Deixar a imaginação voar com elas. Ver a arte nas coisas grandes. Ver a arte nas coisas pequenininhas. Escrever, ler, viajar, cantar, dançar, sonhar, desejar, amar. Interpretar. As palavras, a vida e tudo ao meu redor.
domingo, 4 de outubro de 2009
Algumas utopias...

Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a presença distante das estrelas!
não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a presença distante das estrelas!
Das utopias - Mario Quintana
Quero morar em Paris
essa cidade
que se dá ao direito de realizar
grandiosamente
a cada construção
a cada espaço aberto
a cada canto escondido
grandiosamente
a cada construção
a cada espaço aberto
a cada canto escondido
e beco minúsculo
a metáfora da beleza.
Quero tentar
dolorosamente
amar menos Paris
ao ver como ela também constrói violências.
Quero tentar
apaixonadamente
aprender a amar os fios de alta tensão
a metáfora da beleza.
Quero tentar
dolorosamente
amar menos Paris
ao ver como ela também constrói violências.
Quero tentar
apaixonadamente
aprender a amar os fios de alta tensão
das nossas cidades.
Quero continuar acreditando
Quero continuar acreditando
que as pessoas não precisam do mínimo.
Pão-e-circo não deveria ser luxo.
Quero dizer à minha cidade,
Pão-e-circo não deveria ser luxo.
Quero dizer à minha cidade,
que destruiu o seu teatro:
A arte nos faz humanos.
Quero continuar a sonhar que um dia
A arte nos faz humanos.
Quero continuar a sonhar que um dia
os chafarizes de Campinas funcionarão novamente.
Só porque são lindos.
Coisas lindas não podem também salvar uma vida?
Não acredito que somente hospitais e igrejas salvam vidas.
Só porque são lindos.
Coisas lindas não podem também salvar uma vida?
Não acredito que somente hospitais e igrejas salvam vidas.
Música, poesia, sorrisos e chafarizes também podem salvar vidas.
Como era lindo quando o chafariz da minha universidade vivia!
Ele foi construído na praça central
no coeur
como símbolo da fonte do saber.
Que sentido tem o saber hoje, que não cuida da sua metáfora?
Amanhã também é o aniversário da minha universidade.
Quem sabe no próximo ano eu passe por lá e veja o meu chafariz.
Lembrando novamente Mário Quintana:
Emergência
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
Emergência
Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.
sábado, 12 de setembro de 2009
Eu, que me desconheço
.
Preciso ouvir uma música silenciosa
e solitária
há palavras demais em mim
Quero uma ou outra palavra formosa
e ordinária
como flores vadias de nenhum jardim
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Un petit coin de politiquement incorrecte...
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Eu sou brega!!!
Quando o assunto é música, partindo das classificações pré-existentes sobre o que é “bom” e o que é “ruim”, é considerável a minha inclinação por músicas que costumam ser localizadas na prateleira do “ruim” e chamadas de brega. Depois de alguma crise existencial, passei a valorizar mais meu gosto por várias destas músicas classificadas sob este nome.
Wando, por exemplo: podem falar o que for, mas é impossível deixar de reconhecer a beleza poética de “Moça”. O verso “Moça, moça eu te prometo, eu me viro do avesso só pra te abraçar...”, pra mim, é perfeito. Exceto a parte “moça, sei que já não és pura...”, todo o restante da letra é lindo de doer. Se bem que os versos sobre a pureza da moça também têm sua graça: a música não seria a mesma sem eles...
Wando, por exemplo: podem falar o que for, mas é impossível deixar de reconhecer a beleza poética de “Moça”. O verso “Moça, moça eu te prometo, eu me viro do avesso só pra te abraçar...”, pra mim, é perfeito. Exceto a parte “moça, sei que já não és pura...”, todo o restante da letra é lindo de doer. Se bem que os versos sobre a pureza da moça também têm sua graça: a música não seria a mesma sem eles...
Outro exemplo é ABBA. Na verdade, não sei se as músicas deste grupo são classificadas como brega. Não sou lá muito fã do grupo e nem me imagino ouvindo um disco inteiro dele. Mas eu poderia ouvir uma ou outra música muitas vezes seguidas. Uma delas é “I have a dream”. O engraçado é que, definitivamente, não acredito em anjos, mas adoro a parte que começa com “I believe in angels...”!!! Bom, não sei como explicar esse paradoxo, mas também não me importo com isto.
Ah, a letra e a melodia são maravilhosas! Vivo ouvindo essa música nos momentos em que estou muito animada, deixando extravasar toda breguice a que tenho direito:
Metáfora fantástica e fascinante
O post anterior me fez interpretar que os anjos são metáforas de nós mesmos. Temos a necessidade de acreditar nos outros e precisamos que acreditem em nós. Precisamos ter quem cuide de nós e gostamos de cuidar de quem amamos.
Ao mesmo tempo, não conseguimos tudo o que queremos e somos imperfeitos. Então nos recriamos com asas, produzindo uma metáfora fantástica, sob a forma de um outro. Um outro fascinante, que não falha e que está lá quando falhamos.
Isso me fez lembrar da cena da trapezista em “Asas do Desejo”:
Ao mesmo tempo, não conseguimos tudo o que queremos e somos imperfeitos. Então nos recriamos com asas, produzindo uma metáfora fantástica, sob a forma de um outro. Um outro fascinante, que não falha e que está lá quando falhamos.
Isso me fez lembrar da cena da trapezista em “Asas do Desejo”:
quinta-feira, 2 de julho de 2009
a hora da poesia
para compor desejos em versos
preciso deixar que as palavras tomem conta do corpo
mergulhar no mar revoltoso que elas habitam
nadar profundamente entre elas
e nelas me afogar
a poesia acontece na hora da morte
e a morte vai embora contrariada
histórias da língua brasileira
“Minha vó contava uma história quandu a família tava reunida, sobri um tiu... achu qui é tiu avô, num sei... bom, essi tiu chamava Zuardo, mais u nomi deli era pá sê Osvaldo! “. É qui quandu fôru registrá eli, disséru “Osvardo” tão rápidu, cum um ô qui nem dava pra ouví e cum um érri nu lugar di éli, qui u iscrivão intendeu Zuardo! I intão ficou assim...”
Ana Cláudia, 04 de maio de 1999
“Pois é. U purtuguêis é muito fáciu di aprender, purqui é uma língua qui a genti iscrevi ixatamenti cumu si fala. Num é cumu inglêis qui dá até vontadi di ri quandu a genti discobri cumu é qui si iscrevi algumas palavras. Im portuguêis, é só prestátenção. U alemão pur exemplu. Qué coisa mais doida? Num bate nada cum nada. Até nu espanhol qui é parecidu, si iscrevi muito diferenti. Qui bom qui a minha lingua é u purtuguêis. Quem soubé falá, sabi iscrevê.”
“Pois é. U purtuguêis é muito fáciu di aprender, purqui é uma língua qui a genti iscrevi ixatamenti cumu si fala. Num é cumu inglêis qui dá até vontadi di ri quandu a genti discobri cumu é qui si iscrevi algumas palavras. Im portuguêis, é só prestátenção. U alemão pur exemplu. Qué coisa mais doida? Num bate nada cum nada. Até nu espanhol qui é parecidu, si iscrevi muito diferenti. Qui bom qui a minha lingua é u purtuguêis. Quem soubé falá, sabi iscrevê.”
Jô Soares, revista veja, 28 de novembro de 1990
Já faz 10 anos... Em 1999, durante o meu primeiro ano de graduação em lingüística, fiz um trabalho para a disciplina Introdução aos Estudos da Linguagem e o publiquei alguns anos depois, na página de publicações dos alunos do IEL/Unicamp (Ferreira, 2003).
Esse trabalho, não sei como, parece ter caído no gosto do público. Quando o meu e-mail @iel.unicamp ainda funcionava, eram freqüentes as mensagens de pessoas que queriam saber mais sobre o assunto.
Sempre fiquei um pouco apreensiva ao responder, pois esse texto é apenas um trabalho de quem ainda estava engatinhando nos estudos lingüísticos. Ao mesmo tempo, depois que foi publicado, eu já estava em outro lugar teórico, o que considera a língua brasileira. Essa língua fluida e real, que tem uma espessura histórica própria. Essa língua que eu falo, que a família do meu tio-avô Zuardo fala. Essa língua do Brasil.
Para quem se interessar pelo tema, sugiro a leitura do verbete 'língua brasileira' no site da Enciclopédia das Línguas no Brasil (http://www.labeurb.unicamp.br/elb/portugues/lingua_brasileira.html) e recomendo a obra Língua Brasileira e Outras Histórias (Orlandi, 2009), que reúne um conjunto de textos sobre língua brasileira, língua portuguesa, estudos lingüísticos e gramaticais e o processo de descolonização lingüística.
Referências Bibliográficas
Ferreira, Ana Cláudia Fernandes (2003) "As Variações da Língua". Disponível em:
Orlandi, Eni. "Língua Brasileira". Enciclopédia das Línguas no Brasil - ELB. Disponível em: http://www.labeurb.unicamp.br/elb/portugues/lingua_brasileira.html
_____. (2009) Língua Brasileira e Outras Histórias. Discurso sobre a língua e ensino no Brasil. Campinas: RG Editores.
sábado, 20 de junho de 2009
Goethe...
“Se uma luz atrair você, siga-a. Se ela conduzir você a um pântano, dele sairá. Porém, se não a seguir, terá sempre na vida a impressão de que aquela era a sua estrela”.
quarta-feira, 17 de junho de 2009
terça-feira, 16 de junho de 2009
Radio Muda...
Bons tempos aqueles da radio muda na década de 90... Lembro do programa comandado pelo Toni e pelo Fernandón (onde andam vocês???), que tinha o singelo título "Acorda Filha da Putaaaaa!". O programa fazia todo mundo acordar na marra! A programação misturava rock, punk rock e música caipira...

Há pouco tempo a radio ficou muda. Foi fechada pela Unicamp. Uma pena...

Há pouco tempo a radio ficou muda. Foi fechada pela Unicamp. Uma pena...
domingo, 3 de maio de 2009
Perguntinha...
respondendo a perguntinha "quem sou eu" do orkut em momento crítico de revisão da tese:
uma louca mergulhada em palavras envolventes
às vezes falta o ar
às vezes o fôlego surpreende
uma palavra enlouquecida em mergulhos surpreendentes
às vezes falta o envolvimento
às vezes o ar suspende
um envolvimento supreendente em palavras mergulhadas
às vezes falta o enlouquecido
às vezes a palavra se rende
... isso só pode ser alguma síndrome de anagrama que acomete os lingüistas de vez em quando...
uma louca mergulhada em palavras envolventes
às vezes falta o ar
às vezes o fôlego surpreende
uma palavra enlouquecida em mergulhos surpreendentes
às vezes falta o envolvimento
às vezes o ar suspende
um envolvimento supreendente em palavras mergulhadas
às vezes falta o enlouquecido
às vezes a palavra se rende
... isso só pode ser alguma síndrome de anagrama que acomete os lingüistas de vez em quando...
segunda-feira, 27 de abril de 2009
Pintinhas e estrelas
tatuagens naturais
de constelações de estrelas
o escorpião visível no peito
o cruzeiro do sul pertinho
a estrela da manhã escondida
e outras pintinhas sem nome
brilham na curva de sonhos
e de poeiras efêmeras
quinta-feira, 16 de abril de 2009
A tese, as palavras, o novo, o vento.
Outras vezes ouço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.
Psoa - A espantosa realidade das coisas
Que minhas palavras voem nesta última semana, neste último prazo, nestas últimas madrugadas de revisão de tese.
Depois tudo vai mudar. Vou de encontro ao novo. Ah, quero o novo. Vou me atirar ao vento e ele que me leve para onde quiser.
a música
tal como a palavra
é vento
ela me leva
e vou
com ela
nela
sou uma folha
quinta-feira, 2 de abril de 2009
A gente vive
a gente vive o tempo
que é também espaço
e pausa
a gente vive os encontros
que são também palavras
e silêncios
a gente vive o real
que é também sonho
e cores
espaço, pausa
palavras, silêncios
sonho, cores
a gente vive a vida
tão longe e tão perto
intensamente, a vida
Machado de Assis...
"Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar".
segunda-feira, 23 de março de 2009
Je ne regrette rien
O avião acaba de pousar no aeroporto St. Exupéry. Ah, estou em Lyon novamente. Voilà, parece que cheguei em casa. Lágrimas de emoção? Não, não vieram. O que sinto é uma sensação de lar, uma sensação agradável e engraçada.
Estou de volta. Ah, vou caminhar pelos lugares onde já estive como se nunca tivesse ido embora, como se essa cidade fosse logo ali, pertinho da minha, como se eu pudesse visitá-la sempre, como se fosse rotina, como foi.
Compro o meu ticket na bilheteria da navette inteiramente satisfeita: “bonjour, je veux bien un ticket allez simple, si vous plait”. Allez simple... Tão simples, tão diferente da primeira vez! Ah, maintentant je parle français... pas très bien en fait, mais ça va.
Na navette, vou apreciando a paisagem e pensando na alegria de encontrar a Carol morando aqui, onde já morei. Agora Lyon é a casa dela também. Ai, vou atrasar! Se bem conheço a Carolina, ela já deve estar preocupada. Ah, e os amigos que vou rever novamente! Nem acredito...
Melhor ir treinando o francês... Já esqueci um monte de palavras do meu escasso vocabulário...
Ah, que bom, né? Não sou mais chorona! Como é bom me sentir como “gente civilizada” num momento como este! E ainda consigo ser irônica, que beleza...
E assim, esperando ver logo a Gare Part-Dieu, vou curtindo esse momento de felicidade sem grandes deslumbramentos.
Até que... na rádio da navette, começa a tocar uma música :
Non, rien de rien!
Non, je ne regrette rien!
Non, rien de rien!
Non, je ne regrette rien!
Assisti La Môme quando morava na França...
É...
Os pensamentos correm agora desordenadamente, sem que eu consiga controlá-los... Tantas coisas que vivi nesta cidade passam, em instantes, pela minha cabeça. Um momento, um lugar, uma história, uma canção, várias canções... Todas essas coisas conseguem fazer com que, em mim, uma emoção civilizada se transforme em lágrimas...
Silenciosamente, tête vers la fenêtre, olhando fixamente para fora, fugindo dos olhares dos passageiros (inquisidores, constrangidos, condoídos? nem quero ver!), estou chorando...
Algumas convicções duram tanto! “Não sou mais chorona!”... Essa virou poeira em segundos... Mas não era isso que eu queria? No fundo, era. Ah, que se dane! Meu coração é selvagem! (tenho que ler Clarice Lispector de verdade...)
Não pense, leitor, no entanto, que choro um rio de Piracibaba aqui na navette. Menos, né... É um chorinho silencioso, como já disse. Uma garoinha... Un moment inoubliabe no retorno à minha ville querida.
Rapunzel, Joana D’Arc e Jan(i)e Jones
Sempre quis ter os cabelos longos. Ah, se eu tivesse as compridas madeixas de fogo daquela menina de Cem anos de Solidão...
Ainda moleca, invejava os esvoaçantes cabelos das heroínas das gravuras dos contos de fada. Como queria que a cabeleira chegasse aos pés: "Rapunzel! Jogue as tranças!"...
Gostava de desenhar mil versões de princesas, sempre com os cabelos enormes que desejava ter.
visual princesa encantada da floresta...
Anos depois, numa onda meio punk, meus desenhos começaram a incluir personagens de cabelos curtinhos também.

visual punk rock...
Por duas ou três vezes consegui deixar as madeixas chegarem até quase a cintura. Um dia, como num surto, decidi passar de Rapunzel à Joana D’arc. Na verdade, nunca levei o movimento punk muito a sério, só tinha vontade de ser louca, então descontei no cabeleireiro.
Out of my mind on Saturday night
1970 rolling in sight…
Out of my mind on Saturday night
1970 rolling in sight…
Choque coletivo da família e dos amigos. Com exceção de um inconformado ou outro, a maioria aprovou o novo visual.
Mas ainda hoje, tenho vontade de voltar ser Rapunzel... Ou então imitar a Natalie Portman no papel da stripper Alice (ou Jane Jones!), com suas perucas de estilos e cores variadas. Seria divertido poder mudar o visual conforme der na telha.
Lingüista de fachada e stripper descabelada? Quem sabe em breve, quando meus recursos forem menos escassos. Por enquanto, sou apenas uma escritora desvairada mesmo...
(Jane Jones é quase Janie Jones, como na música do The Clash. Não consigo desvincular um nome de outro).

