quarta-feira, 7 de agosto de 2013

Mais de Eduardo Galeano...

 
Los caminos del viento

Querido Stig:

Ojalá seamos dignos de tu desesperada esperanza.

Ojalá podamos tener el coraje de estar solos y la valentía de arriesgarnos a estar juntos, porque de nada sirve un diente fuera de la boca, ni un dedo fuera de la mano.

Ojalá podamos ser desobedientes cada
vez que recibimos órdenes que humillan nuestra conciencia o violan nuestro sentido común.

Ojalá podamos merecer que nos llamen locos, como han sido llamadas locas las Madres de Plaza de Mayo, por cometer la locura de negarnos a olvidar en los tiempos de la amnesia obligatoria.

Ojalá podamos ser tan porfiados para seguir creyendo, contra toda evidencia, que la condición humana vale la pena, porque hemos sido mal hechos, pero no estamos terminados.

Ojalá podamos ser capaces de seguir caminando los caminos del viento, a pesar de las caídas y las traiciones y las derrotas, porque la historia continúa, más allá de nosotros, y cuando ella dice adiós, está diciendo: hasta luego.

Ojalá podamos mantener viva la certeza de que es posible ser compatriota y contemporáneo de todo aquel que viva animado por la voluntad de justicia y la voluntad de belleza, nazca donde nazca y viva cuando viva, porque no tienen fronteras los mapas del alma ni del tiempo.

Eduardo Galeano - Palabras de agradecimiento al recibir el Premio Stig Dagerman.
 (Suecia, 12 de septiembre de 2010).


Retirado do blog: 
http://www.memoriadelfuego.org/2013/08/los-caminos-del-viento.html

terça-feira, 6 de agosto de 2013

por isso BEIJE-ME!!!


Finalmente fui a um show do Ney Matogrosso!!! 
E fui com o meu amor... 



 (Homenagem de Ney Matogrosso a Itamar Assumpção)

Rosas crisântemos cravos e jasmins
Brancas margaridas nos jardins
Borboletas mil cores nos polens das flores
Porém isso não vai ficar assim, meu bem
Isso não vai ficar assim 

Bichos bichas punk anjos querubins
Iansã deus tupã eu tudo enfim
Peter-Pan pó de pirlimpimpim
Também isso não vai ficar assim, meu bem
Isso não vai ficar assim
Por isso beije-me

Tudo se for bom nela se for ruim
Colibris carnavais vocais corais
Rês camponês vocês cobras e cupins
Porém isso não vai ficar assim, meu bem
Isso não vai ficar assim

Nossos filhos, nossas filhas
Vidas individuais mortais
Também nem mais do que seus pobres pais
Pintam bordam fazem quase tudo podem
Porém isso não vai ficar assim meu bem
Isso não vai ficar assim
Por isso beije-me
Como se fosse esta noite a última vez

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

listinha...


Coisas essenciais que preciso comprar ainda neste ano: 

* ingredientes de uma receita de doce, 
* gerânios para o meu jardim 
* e fitas de gorgurão para mim... 



domingo, 9 de dezembro de 2012

Casa de mel

IRARUCA* 

Destino é o nome que damos 
à nossa comodidade, 
à covardia do não-risco,
do não-pegar-as-coisas-com-os-dentes. 

Quanto a mim,
pátria é o que eu chamo poesia
e todas as sensualidades: vida. 
Amor é o que eu chamo mar,
é o que eu chamo água. 

*(do tupi): casa de mel.

Olga Savary

domingo, 18 de novembro de 2012

parafraseando Drummond...


Eu não devia dizer... 
mas essa sensação de que eu perdi algo
e que talvez passe logo... 
e essa música
e esse vinho... 
botam a gente comovida como o diabo!

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Simone de Beauvoir

« Vraiment, j'ai réussi ma vie, puisque j'ai réussi à peu près tous mes rêves. Simplement, il y a un moment où, quand on se retourne réflexivement sur sa vie, on s'aperçoit qu'une vie, même réussie, c'est sur un certain plan un échec, parce que ce n'est pas quelque chose, une vie, qu'on peut prendre dans ses mains, posséder, contempler : on n'a pas une vie, finalement. C'est exactement cela : les promesses ont été tenues mais, une promesse tenue, ce n'est pas ce qu'on se promettait, parce qu'on vise toujours l'être, l'absolu, et qu'on n'a jamais qu'une existence relative. Au fond, c'est très simple, je croyais, quand j'étais jeune, que j'avais une vie devant moi, mais une vie n'est jamais ni devant ni derrière, ce n'est pas quelque chose qu'on a, c'est quelque chose qui passe. » 

“Verdadeiramente, eu consegui me realizar em minha minha vida, porque eu consegui realizar quase todos os meus sonhos. Simplesmente, há um momento no qual, quando se retorna reflexivamente sobre sua vida, se percebe que uma vida, mesmo realizada, é sobre um certo plano uma derrota, porque a vida não é alguma coisa que se possa prender nas mãos, possuir, contemplar: não se tem uma vida, finalmente. É exatamente isso: as promessas foram feitas, mas uma promessa feita não é o que se prometeu, porque se visa sempre o ser, o absoluto e não temos jamais senão uma existência relativa. No fundo, é muito simples; eu acreditava, quando era jovem, que tinha uma vida diante de mim, mas uma vida não está jamais nem diante nem atrás, não é alguma coisa que se tem, é alguma coisa que passa.” 


sábado, 8 de setembro de 2012

da memória...


às vezes eu gosto de acender um cigarro só para ouvir o barulhinho da brasa queimando e ver a fumaça se desfazendo no ar, como o tempo... o tempo e a fumaça vão embora, enquanto a memória fica...




mas a memória também é brasa e fumaça, e também muda com o tempo... ela acende, queima e faz curvas... corre para um lado, depois voa para outro... ri, chora, sonha, apaga, esquece e depois acende de novo...

a memória imagina o que foi, e imagina diferente a cada vez... o passado da memória se contorna pelos acontecimentos do presente, se re-contorna de novas curvas, novas faíscas, novos sonhos, e retorna diferente... imaginação brinca com a memória, fumaça misteriosa, que se desfaz e refaz, indefinidamente...


domingo, 2 de setembro de 2012

e ...



As roseiras mais floridas, um botão de amarilis que surge feito mágica e três siriris que invadem este apartamento, mesmo com todas as janelas fechadas... Primavera!!!! Que gostoso te sentir chegando!!! Agora só falta você me dar: a cantoria das suas cigarras madrugadeiras, o ar cheio de umidade, e ... 


quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Vaidosíssima


"O principezinho, que assistia à instalação de um enorme botão, bem sentiu que sairia dali uma aparição miraculosa; mas a flor não acabava mais de preparar-se, de preparar sua beleza, no seu verde quarto. Escolhia as cores com cuidado. Vestia-se lentamente, ajustava uma a uma suas pétalas. Não queria sair, como os cravos, amarrotada. No radioso esplendor da sua beleza é que ela queria aparecer. Ah ! sim. Era vaidosa. Sua misteriosa toalete, portanto, durara dias e dias. 
E eis que uma bela manhã, justamente à hora do sol nascer, havia-se, afinal, mostrado. E ela, que se preparara com tanto esmero, disse, bocejando: 
 - Ah ! eu acabo de despertar. . . Desculpa... Estou ainda toda despenteada... 
O principezinho, então, não pôde conter o seu espanto: 
- Como és bonita! 
- Não é? respondeu a flor docemente. Nasci ao mesmo tempo que o sol... 
O principezinho percebeu logo que a flor não era modesta. Mas era tão comovente!" 

O Pequeno Príncipe - Antoine de Saint-Exupéry

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Nunca postei nada do Eduardo Galeano por aqui? Hora de começar... : )

La pálida 

Mis certezas desayunan dudas. Y hay días en que me siento extranjero en Montevideo y en cualquier otra parte. En esos días, días sin sol, noches sin luna, ningún lugar es mi lugar y no consigo reconocerme en nada, ni en nadie. Las palabras no se parecen a lo que nombran y ni siquiera se parecen a su propio sonido. Entonces no estoy donde estoy. Dejo mi cuerpo y me voy, lejos, a ninguna parte, y no quiero estar con nadie, ni siquiera conmigo, y no tengo, ni quiero tener, nombre ninguno: entonces pierdo las ganas de llamarme o ser llamado. 

Eduardo Galeano - El libro de los abrazos

terça-feira, 17 de julho de 2012

Uma verdade contraditória

Há coisas que não posso perdoar e nem esquecer. Mas uma coisa que consegui entender em mim é que, quando a falta é cometida por quem eu amo muito, o amor acaba sendo maior do que o não-perdão. 

Poder não perdoar – não perdoar mesmo! – e ainda assim amar – e amar demais! – é aceitar uma condição talvez contraditória, mas que é verdadeira em mim. 

Não quero ser o hipócrita que se policia para esconder a lembrança dolorida dos erros do outro quando ela vem à tona e nem o rancoroso que se veste com todas as armas para que impedir que o menor vestígio de amor se escancare no momento mais desprevenido. 

Eu decidi viver assim, sem apagar o que não pode ser apagado – o erro e o amor – porque todos erram e todos amam. E eu quero o não-perdão verdadeiro e o amor escancarado!

domingo, 1 de julho de 2012

Simples desejo

"que tal abrir a porta do dia
entrar sem pedir licença
sem parar pra pensar,
pensar em nada… 

legal ficar sorrindo à toa
sorrir pra qualquer pessoa 
andar sem rumo na rua" 



"eu não quero tudo de uma vez"... 
mas eu quero TU-DO!!! 

^_^

quarta-feira, 28 de março de 2012

these foolish things



A cigarette that bears a lipstick's traces,
An airline ticket to romantic places,
A fairgrounds painted swings,
These foolish things remind me of you.

A tinkling piano in the next apartment,
Those stumbling words that told you what my heart meant,
And still my heart has wings.
These foolish things remind me of you.
You came, you saw, you conquered me.

When you did that to me, I knew somehow
It had to be.

The winds of March that make my heart a dancer,
A telephone that rings but who's to answer.
Oh, how the thought of you clings.
These foolish things remind me of you.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Casamento de passarinho




uma pausa para ver
a tardinha
da minha janela
com nuvens cor-de-rosa
aviãozinho bimotor
helicóptero
carros, caminhões, carro de bombeiro
cachorros latindo em disputa
entre os muros de casas
e janelas de outros apartamentos

uma formiga passando por cima do papel
mosquitos, pessoas andando
tanto som de carro que até parece onda de mar

  mas obviamente
  eu prefiro onda de mar

a lua crescente
que já está lá no céu faz tempo
mas que só agora eu vi

quanto tempo você aguenta
Ana Cláudia
sem morrer de tédio
ou de saudade...

mosquitinhos pousando nas roseiras
dia fresquinho
de azul bonito
que é o azul da minha cidade

o bosque verde
o catavento em repouso
porque hoje resolveu não ter muito vento

uma brisa levíssima
e as andorinhas dando rasantes por aí

saudade das festas de casamento imaginárias
nos postes cheios de pardais

  aquele ali é o padre 
  aqueles dois mais pra lá são os noivos
  os convidados são os outros que estão mais pra lá ainda
  olha lá, vai dar briga
  
  qual é a noiva?
  
  é a que não tem barriguinha preta
  
  ah, tá bonito esse noivo
  de fraque e tudo

se não houvesse fios nos postes
não teria havido tanto casamento de passarinho



sábado, 31 de dezembro de 2011

O que a memória ama...


"O que a memória ama fica eterno" (Adélia Prado)

Um ano passa, os anos passam, o tempo passa. Mas tudo o que realmente importa resiste ao tempo e se transforma em memória. Que o próximo ano nos traga novas e lindas memórias!!! Feliz 2012!!!

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Defensa de la alegría (Mario Benedetti)


Defender la alegría como una trinchera
defenderla del escándalo y la rutina
de la miseria y los miserables
de las ausencias transitorias
y las definitivas

defender la alegría como un principio
defenderla del pasmo y las pesadillas
de los neutrales y de los neutrones
de las dulces infamias
y los graves diagnósticos

defender la alegría como una bandera
defenderla del rayo y la melancolía
de los ingenuos y de los canallas
de la retórica y los paros cardiacos
de las endemias y las academias

defender la alegría como un destino
defenderla del fuego y de los bomberos
de los suicidas y los homicidas
de las vacaciones y del agobio
de la obligación de estar alegres

defender la alegría como una certeza
defenderla del óxido y la roña
de la famosa pátina del tiempo
del relente y del oportunismo
de los proxenetas de la risa

defender la alegría como un derecho
defenderla de dios y del invierno
de las mayúsculas y de la muerte
de los apellidos y las lástimas
del azar
y también de la alegría.


quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

As saudades...


Chega o final do ano e eu começo a pensar em tantas pessoas queridas! E fico cheia de saudades...

Saudades alegres
          de risadas compartilhadas;

Saudades tristes
          de partidas;

Saudades cheias de ternura
          de quando as palavras não são necessárias;

Saudades de pequenos momentos (geralmente segundos)
          grandes demais para caber no espaço e no tempo;

Saudades perigosas
          que eu não entendo (ou não quero entender);

Saudades incondicionais
          que não entendo (e (não) quero entender)
                      e que cortam “como aço de navaia”...

Todas essas saudades se misturam nas lembranças, mas a mistura é sempre diferente, seja com a família, seja com os amigos, seja com os amores...

As únicas saudades que incluem todas as outras são as incondicionais. Mas as outras também são imprescindíveis na minha vida, mesmo (ou, talvez, principalmente!) as perigosas. 

sábado, 10 de dezembro de 2011

Dia C


Como a dama-da-noite é uma das minhas flores preferidas... como é madrugada... e como já é o dia da Clarice... lembrei destas palavras dela:

Dama-da-noite tem perfume de lua cheia. É fantasmagórica e um pouco assustadora e é para quem ama o perigo. Só sai de noite com o seu cheiro tonteador. Dama-da-noite é silente. E também da esquina deserta e em trevas e dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas. É perigosíssima: é um assobio no escuro, o que ninguém agüenta. Mas eu agüento porque amo o perigo.

C. Lispector

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Pré-requisito


"E que seja tida por nós como falsa toda verdade que não acolheu uma gargalhada."

Nietzsche
.
.
.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Pan tumaca a la Clau


Num desses dias de conversa via skype com o meu irmão Marcos, eu no Brasil e ele na Espanha, desandamos a falar de comida. 

O assunto surgiu, acho, quando comentei que meu dia não começa direito se fico sem café com leite e pão na chapa. Aí veio a curiosidade de saber qual é o café da manhã dos espanhóis. O Marcos disse que é o pan tumaca, uma receita catalã, super saudável, feita de pão fatiado assado com tomate e azeite por cima. 

Não sei se foi bem assim que ele descreveu a iguaria, mas fiquei com água na boca. Depois da conversa, resolvi procurar a "cara" do pan tumaca na internet, mas nem me dei ao trabalho de copiar uma receita. É simples demais, não tem erro. A descrição sucinta do meu irmão e a foto que encontrei já são suficientes - pensei.

Quando ele veio ao Brasil visitar a família, decidi fazer pan tumaca para ele. E, com toda a certeza do mundo, lá fui eu comprar os ingredientes e preparar a especiaria...

Ingredientes
  • pão tipo banette, do Olivier Anquier (no Pão de Açucar tem. Mas pode ser pão italiano ou outro tipo que seja crocante por fora e massudo por dentro)
  • tomates italianos
  • um pouquinho de sal 
  • azeite português (pode ser outro, mas tem que ser bom)


     
    Modo de fazer
    1. Corte o pão em rodelas de mais ou menos um centímetro e meio e reserve. 
    2. Numa tigela, rale o tomate com casca e tudo, adicione um pouco de sal e misture. 
    3. Espalhe um garfo cheio do tomate em cada fatia de pão. Se sobrar caldinho de tomate na tijela, distribua-o sobre os pães. 
    4. Em seguida, despeje azeite sobre cada fatia e leve os pães ao forno médio. 
    1 e 2: pão cortadinho e tomate ralado, temperado com um pouco de sal.
    3: preparação do pan tumaca
    4: pan tumaca preparado, regado de azeite e prontinho para ir ao forno
     


    O pan tumaca estará pronto quando os pães estiverem crocantes por fora, mas ainda macios e molhadinhos por dentro e quando os tomates estiverem um pouco assadinhos. 

    Depois de pronto, despeje mais um pouco de azeite sobre as fatias - sem encharcar o pão, mas também sem economizar, senão fica sem graça - e sirva quente.

    Fotos tiradas durante uma noite gelada de inverno... ^_^

    Fiz o pan tumaca durante um jantarzinho em casa, com frisante bem gelado, pois estava calor. Todos gostaram e pediram a receita, que comecei a passar, toda convencida. Mas, no meio da explição, o Marcos me interrompeu e disse que a receita catalã era diferente. Só o pão que vai ao forno. O tomate é colocado depois, frio mesmo. 

    Esse Pan tumaca "inventado" meio que sem querer é diferente do original, que tive a oportunidade de provar depois e que também é muito bom. Os ingredientes estrangeiros, os mal-entendidos e alguma imaginação podem resultar em misturas inesperadas e em boas surpresas. Para quem quiser se aventurar e experimentar essa receita simples e meio abrasileirada, bon profit!


    terça-feira, 18 de outubro de 2011

    Eu gosto


    Eu gosto do vento quando ele faz escândalos

    Eu gosto de ouvir o vento quietinha
    embaixo das cobertas
    ^_^

    Embaixo das cobertas
    e com os olhos abertos no escuro
    o_o

    Eu gosto de ouvir as rajadas do vento
    em mil acordes diferentes

    domingo, 9 de outubro de 2011

    Movimento


    eu gosto de vento nos cabelos 
    quando não tem vento 
    eu danço 
    eu in-vento 


    sábado, 8 de outubro de 2011

    PrimaVERÃO




    PrimaVERÃO - É quando vem aquela vontade urgente de colocar o vestido mais leve, fresquinho e florido, ir a pé até a feira - e para onde mais os pezinhos desejarem ir -, apreciar o movimento, sentir vento refrescando - mesmo que um pouquinho só - o dia quente, ensolarado e de céu bem azul!!!

    terça-feira, 4 de outubro de 2011

    Tudo o que eu fui prossegue em mim





    Noite Estrelada - Van Gogh*



    Não voltaria no tempo para consertar meus erros, não voltaria para a inocência que eu tinha - e tenho ainda. Terei saudades da ingenuidade que nunca perdi? Não tenho saudades nem de um minuto atrás. Tudo o que eu fui prossegue em mim. 


    Martha Medeiros


    * A cor foi mudada, para ficar no clima do blog



    terça-feira, 2 de agosto de 2011

    Desejar ser (Manoel de Barros)




    Sei que fazer o inconexo aclara as loucuras. Sou formado em desencontros.
    A sensatez me absurda.
    Os delírios verbais me terapeutam.
    Posso dar alegria ao esgoto (palavra aceita tudo).
    (E sei de Baudelaire que passou muitos meses tenso porque não encontrava um título para os seus poemas.
    Um título que harmonizasse os seus conflitos. Até que apareceu Flores do mal. A beleza e a dor.
    Essa antítese o acalmou.)
    As antíteses congraçam.


    ...

    acordei e fui olhar pela janela
    estou ornando com a manhã da cidade
    meio nublada


    ...

    domingo, 31 de julho de 2011

    mihi suspirium









    Acendi um cigarro
    só de pirraça
    porque sou contra extremismos
    e porque eu precisava suspirar diferente...
    "O cigarro é uma maneira disfarçada de suspirar" (Mário Quintana)

    quinta-feira, 28 de julho de 2011

    Sorte







    Ontem, sem perceber, prendi dois trevos do meu vasinho na gaveta do arquivo. Quando vi o que fiz senti um aperto de tristeza. E trevo lá sente dor? Mas senti pena mesmo assim. Soltei os trevinhos, mas não tive coragem de arrancá-los do vaso.
    Hoje fui dar uma olhadinha neles e eles des-murcharam... Que bom! Nunca que eu poderia maltratar a sorte... Meus trevinhos entenderam!!!
    ; )


    sexta-feira, 15 de julho de 2011

    O Cisco - Manoel de Barros



    (Tem vez que a natureza ataca o cisco para o bem.)
    Principais elementos do cisco são: gravetos, areia,
    cabelos, pregos, trapos, ramos secos, asas de mosca,
    grampos, cuspe de aves, etc.
    Há outros componentes do cisco, porém de menos
    importância.
    Depois de completo, o cisco se ajunta, com certa
    humildade, em beiras de ralos, em raiz de parede,
    Ou, depois das enxurradas, em alguma depressão de
    terreno.
    Mesmo bem rejuntado o cisco produz volumes quase
    sempre modestos.
    O cisco é infenso a fulgurâncias.
    Depois de assentado em lugar próprio, o cisco
    produz material de construção para ninhos de
    passarinhos.
    Ali os pássaros vão buscar raminhos secos, trapos,
    asas de mosca
    Para a feitura de seus ninhos.
    O cisco há de ser sempre aglomerado que se iguala
    a restos.
    Que se iguala a restos a fim de obter a contemplação
    dos poetas.
    Aliás, Lacan entregava aos poetas a tarefa de
    contemplação dos restos.
    E Barthes completava: Contemplar restos é
    narcisismo.
    Ai de nós!
    Porque Narciso é a pátria dos poetas.
    Um dia pode ser que o lírio nascido nos monturos
    empreste qualidade de beleza ao cisco.
    Tudo pode ser.
    Até sei de pessoas que propendem a cisco mais do
    que a seres humanos.

    quinta-feira, 7 de julho de 2011

    Quando vou p'ra dar batalha, convido meu coração



    Uma palavra vai nos levando a outras palavras, a outros enunciados, a outros lugares. As palavras são assim. Algumas vezes elas nos levam mesmo é para lugar nenhum. Ou então, na maioria das vezes, para o lugar-comum da rotina, do mesmo e do já sabido. Mas essas mesmas palavras - e isto é impressionante - também têm o poder de fazer desvios e nos fazer chegar a paragens desconhecidas e formidáveis.

    Quando desconfio que elas estão me desviando para novas paragens, já sei que demorarei a voltar. Foi justamente o que me aconteceu depois de ler o verso:

    "Quando vou p'ra dar batalha, convido meu coração"

    Esse verso não me chegou por conta de um acaso espantoso. Na verdade, eu busquei por ele. E o encontrei numa dessas aventuras labirínticas do google em busca de nomes e palavras. Ele está presente na obra Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, na Canção de Siruiz:


    urubu é vila alta
    mais idosa do sertão
    padroeira minha vida
    vim de lá, volto mais não

    corro os dias nesses verdes
    meu boi mocho baetão
    buriti, água azulada
    carnaúba, sal do chão

    remanso de rio largo
    viola da solidão
    quando vou p'ra dar batalha
    convido meu coração


    Quando descobri que este era o meu verso, meu dia parou. E como se não bastasse ainda achei uma adaptação e interpretação de Antonio Candido para a canção, que me deixou emocionada. Não consigo parar de ouvi-la...

    Para quem quiser correr o risco de se encantar, como eu, é só acessar o endereço abaixo:
    http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u416656.shtml

    Tudo isso para dizer que encontrei as palavras que eu queria, que elas me levaram a um lugar inesperado, que vou guardá-las no coração e que lembrarei delas durante as batalhas difíceis.

    Mas não era para mim que eu queria essas palavras. Elas eram para eu realizar um ritual que inventei (para desejar que tudo dê certo!) sem rezar para os santos. É que em rezar eu não acredito, mesmo achando tão bonito.

    Eu sei que os homens e os santos não deixarão de ver nesse ritual (meio esquisito?) uma forma de rezar. Eles podem, talvez, ver graça na "escolha" de dois nomes da literatura brasileira como os seus porta-vozes para os meus votos. Mas eu também sei que Guimarães Rosa e Antonio Candido não poderiam ser padrinhos melhores neste caso para - através das palavras de um, da voz de outro e da importância de ambos em nossa história - levar o meu desejo de boa sorte aonde ele deve ir.

    domingo, 26 de junho de 2011

    Eu, certamente... (ou: negociando com o medo)


    ÂNGELA - Eu gosto de escadarias
    (Clarice Lispector - Um sopro de vida)




    20 de junho, primeiras horas:

    Uma de mim - Já fui tantas de mim. Quero ser algumas outras vezes. E outras que ainda não me conheço. Com medo, no impulso, de uma vez só. E devagarinho.

    20 de junho, depois que tudo passou:

    A mesma de mim, mas um pouquinho diferente - Que bom que eu estou aqui.

    Hoje, entre meio-dia e uma e meia da tarde (O tempo das palavras pensadas é um segundo. O tempo das palavras escritas é um mistério):

    Outra de mim, que tenta sempre colocar os meus pés no chão (mas que nem sempre consegue) - Como eu sou melodramática.


    Eu, me explicando para a outra de mim - É que o medo de tudo acabar de uma hora para outra me deixa apavorada.

    Eu, mas já outra, embora ainda a mesma - Mas passou e agora posso continuar com as ilusões das minhas certezas, porque algumas certezas vão acontecer mesmo! Que delícia de ansiedade louca.

    Eu, com certeza ((?) Odeio este ponto de interrogação) - Eu serei tantas, algumas, outras... Tem uma que eu quero ser mais! Quantas vezes eu puder...


    domingo, 8 de maio de 2011

    As três experiências (Clarice Lispector)





    Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O "amar os outros" é tão vasto que inclui até o perdão para mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida . Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.

    E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez. Cada livro meu é uma estréia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa é o que eu chamo de viver e escrever.

    Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles, eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei que um dia abrirão as asas para o vôo necessário, e eu ficarei sozinha: É fatal, porque a gente não cria os filhos para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas as mulheres.

    Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia.

    Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.


    -----

    Ainda me falta a terceira experiência. Imagino como deve ser, mas a imaginação deve ser muito diferente da realidade. Talvez um dia eu saiba... ; ) Um abraço enorme para todas as mães!!!!

    domingo, 17 de abril de 2011

    Os sonhos não avisam, a não ser...

    Os sonhos não avisam,
    a não ser quando os que sonham se sentem avisados.


    José Saramago




    Depois que o Saramago disse pra Carol dizer isso pra mim, brigo menos comigo quando ouso sonhar com os meus sonhos malucos.

    Afinal, as coisas mais importantes que desejei e consegui realizar eram "coisas malucas".

    Se essas coisas aparecem nos sonhos e me fazem sentir avisada, lutar para não desejá-las é um desperdício.

    Talvez sejam estes sonhos os que mais valem a pena.


    quarta-feira, 13 de abril de 2011

    barquinhos coloridos




    Quanto tempo faz que a metáfora da fonte do saber deixou de importar para a universidade? Nem me lembro. Mas sempre que passo pela praça do ciclo básico e vejo o chafariz sem água, fico triste e inconformada.

    Nessa semana que passou, no entanto, tive uma surpresa. O chafariz estava cheio. Não de água, mas de barquinhos de papel.

    Talvez outras pessoas, ao passarem por ali, também pensassem como eu penso. E talvez se sentissem um pouco como eu me sinto. Foi como se a água não faltasse apenas para mim. Que bonito ver o chafariz cheio de barquinhos coloridos navegando por águas invisíveis!


    domingo, 3 de abril de 2011

    Égoïstement



    Elle ne cherchait pas le plaisir d'autrui.
    Elle s'enchantait égoïstement du plaisir de faire plaisir.

    Simone de Beauvoir


    sexta-feira, 1 de abril de 2011

    Anagramas


    "Seriam os anagramas como esses rostos que se lêem nas manchas de tinta? (...) Por que não existiria uma iteração, uma palilalia geradoras que projetariam e redobrariam, no discurso, os materiais de uma primeira palavra, ao mesmo tempo não pronunciada e não calada?"


    As palavras sob as palavras

    Jean Starobinski


    segunda-feira, 28 de março de 2011

    as datas





    Uma data é um dia diferente (e não apenas um dia representado por um número em um calendário). A lembrança desse dia assim diferente, esse ritual cíclico rememorado no calendário, permite trazer para o presente um pouco do que foi inesquecível, fazendo com que aquilo que passou (que é desejo) continue existindo.


    domingo, 20 de março de 2011

    Poema em linha reta (Fernando Pessoa)


    Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
    Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

    E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
    Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
    Indesculpavelmente sujo,
    Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
    Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
    Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
    Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
    Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
    Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
    Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
    Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
    Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
    Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
    Para fora da possibilidade do soco;
    Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
    Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

    Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
    Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
    Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

    Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
    Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
    Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
    Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
    Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
    Ó príncipes, meus irmãos,

    Arre, estou farto de semideuses!
    Onde é que há gente no mundo?

    Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

    Poderão as mulheres não os terem amado,
    Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
    E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
    Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
    Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
    Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



    A melhor interpretação do poema:

    http://niilismo.net/poemas/poema_em_linha_reta.php

    segunda-feira, 7 de março de 2011

    Na ilha por vezes habitada (José Saramago)



    Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
    manhãs e madrugadas em que não precisamos de morrer.
    Então sabemos tudo do que foi e será.
    O mundo aparece explicado definitivamente e entra
    em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
    palavras que a significam.
    Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
    Com doçura.
    Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
    vontade e os limites.
    Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
    sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
    mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.
    Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
    como a água, a pedra e a raiz.
    Cada um de nós é por enquanto a vida.
    Isso nos baste.

    domingo, 27 de fevereiro de 2011

    Antigamente (Carlos Drummond de Andrade)



    Com o meu vestido de domingo. Prontinha para ir ao cinematógrafo!


    Antigamente, as moças chamavam-se mademoiselles e eram todas mimosas e muito prendadas. Não faziam anos: completavam primaveras, em geral dezoito. Os janotas, mesmo não sendo rapagões, faziam-lhes pé-de-alferes, arrastando a asa, mas ficavam longos meses debaixo do balaio. E se levavam tábua, o remédio era tirar o cavalo da chuva e ir pregar em outra freguesia. As pessoas, quando corriam, antigamente, era para tirar o pai da forca e não caíam de cavalo magro. Algumas jogavam verde para colher maduro, e sabiam com quantos paus se faz uma canoa. O que não impedia que, nesse entrementes, esse ou aquele embarcasse em canoa furada. Encontravam alguém que lhes passasse a manta e azulava, dando às de vila-diogo. Os mais idosos, depois da janta, faziam o quilo, saindo para tomar fresca; e também tomavam cautela de não apanhar sereno. Os mais jovens, esses iam ao animatógrafo, e mais tarde ao cinematógrafo, chupando balas de altéia. Ou sonhavam em andar de aeroplano; os quais, de pouco siso, se metiam em camisa de onze varas, e até em calças pardas; não admira que dessem com os burros n’água.

    Havia os que tomaram chá em criança, e, ao visitarem família da maior consideração, sabiam cuspir dentro da escarradeira. Se mandavam seus respeitos a alguém, o portador garantia-lhes: “Farei presente.” Outros, ao cruzarem com um sacerdote, tiravam o chapéu, exclamando: “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”, ao que o Reverendíssimo correspondia: “Para sempre seja louvado.” E os eruditos, se alguém espirrava — sinal de defluxo — eram impelidos a exortar: “Dominus tecum”. Embora sem saber da missa a metade, os presunçosos queriam ensinar padre-nosso ao vigário, e com isso metiam a mão em cumbuca. Era natural que com eles se perdesse a tramontana. A pessoa cheia de melindres ficava sentida com a desfeita que lhe faziam, quando, por exemplo, insinuavam que seu filho era artioso. Verdade seja que às vezes os meninos eram mesmo encapetados; chegavam a pitar escondido, atrás da igreja. As meninas, não: verdadeiros cromos, umas tetéias.

    Antigamente, certos tipos faziam negócios e ficavam a ver navios; outros eram pegados com a boca na botija, contavam tudo tintim por tintim e iam comer o pão que o diabo amassou, lá onde Judas perdeu as botas. Uns raros amarravam cachorro com lingüiça. E alguns ouviam cantar o galo, mas não sabiam onde. As famílias faziam sortimento na venda, tinham conta no carniceiro e arrematavam qualquer quitanda que passasse à porta, desde que o moleque do tabuleiro, quase sempre um cabrito, não tivesse catinga. Acolhiam com satisfação a visita do cometa, que, andando por ceca e meca, trazia novidades de baixo, ou seja, da Corte do Rio de Janeiro. Ele vinha dar dois dedos de prosa e deixar de presente ao dono da casa um canivete roscofe. As donzelas punham carmim e chegavam à sacada para vê-lo apear do macho faceiro. Infelizmente, alguns eram mais do que velhacos: eram grandessíssimos tratantes.

    Acontecia o indivíduo apanhar constipação; ficando perrengue, mandava o próprio chamar o doutor e, depois, ir à botica para aviar a receita, de cápsulas ou pílulas fedorentas. Doença nefasta era a phtysica, feia era o gálico. Antigamente, os sobrados tinham assombrações, os meninos lombrigas, asthma os gatos, os homens portavam ceroulas, botinas e capa-de-goma, a casimira tinha de ser superior e mesmo X.P.T.O. London, não havia fotógrafos, mas retratistas, e os cristãos não morriam: descansavam.

    Mas tudo isso era antigamente, isto é, outrora.



    domingo, 20 de fevereiro de 2011

    Dúvida do primeiro (?) poema...





    tempos, espaços e corpos
    pontos, traços e curvas
    que se desencontram
    se reencontram?
    mistério...

    16 de novembro de 2008.

    quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

    Meu novo mundo...





    Percorro todas as tardes um quarteirão de paredes
    nuas.
    Nuas e sujas de idade e de ventos.
    Vejo muitos rascunhos de pernas de grilos pregados
    nas pedras.
    As pedras, entretanto, são mais favoráveis a pernas
    de moscas do que de grilos.
    Pequenos caracóis deixaram suas casas pregadas
    nestas pedras
    E as suas lesmas saíram por aí á procura de outras
    paredes.
    Asas misgalhadinhas de borboletas tingem de azul
    estas pedras.
    Uma espécie de gosto por tais miudezas me paraliza.
    Caminho todas as tardes por estes quarteirões
    desertos, é certo.
    Mas nunca tenho certeza
    Se estou percorrendo o quarteirão deserto
    Ou algum deserto em mim.

    Manoel de Barros - Miudezas


    Foi somente depois de voltar de viagem, e um bom tempo depois, que senti falta dos meus óculos. E aí percebi que eles tinham ficado no velho mundo. Ao comentar sobre isso, um amigo respondeu dizendo que são necessários novos olhos para enxergar bem um novo mundo... Esta resposta coube direitinho no momento. Porque todas as vezes que volto do velho mundo, vejo este nosso novo mundo com outros olhos.

    A primeira vez que voltei foi muito difícil, por muitos motivos. Mas as outras vezes não. E esta última volta foi uma tranquilidade. Gosto muito de lá, mas gosto cada vez mais daqui...

    Que sensação agradável sentir o clima de calor e umidade, ver o céu carregado e escuro, o vento fazendo barulho, a chuva cair pesada, e o sol aparecer novamente!

    Que bom andar pelas minhas ruas de paralelepípedos, perceber o mato nascendo ao redor de tudo, e ver uma beleza estranha nos fios de alta tensão...


    quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

    sul americAna





    Sentindo

    respirando
    sendo
    de outra maneira
    e da mesma

    sul americAna


    "Te quiero Sur,
    Sur, te quiero".






    terça-feira, 18 de janeiro de 2011

    ´´´´´


    Quase vestida de sol

    vi a chuva
    em cima do morro.

    Manoel de Barros


    segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

    Morta de medo e viva de esperança...


    El atado




    Escribir sin contar es como vivir sin vida. Las palabras serán inocentes, pero no su relación. El contador traza una columna del "debe" y otra del "haber" y en la última anota los silencios que supo conseguir. Con las caras de una palabra quisiera hacer piedras y mirarlas todas hasta el fin de mis días. Esas caras siempre tienen otras fugitivas de la boca. Morder la piedra, entonces, es la tarea del poeta, hasta que sangren las encías de la noche. En esa noche navegará sin rumbo fijo, desconfiado de todo, en especial de sí, mirando espejos que cantan como sirenas que no existen. El poeta se atará al palo mayor de su ignorancia para no caer en sí mismo, sino en otro país de aventura mayor, muerto de miedo y vivo de esperanza. Sólo el dolor lo unirá muertovivo al vacío lleno de rostros y verá que ninguno es el suyo. Y todos serán libres.

    Juan Gelman